Revoada

Era verão. Em Leme, sempre faz muito calor nessa época. O céu estava bem azul e não tinha uma nuvem para contar história. Ansiosa, Salete abriu a geladeira em busca da garrafa de água. Avistou no fundo dela o doce de mamão que havia feito no dia anterior. Ela havia colocado ali meio escondido porque estava comendo demais. Não resistiu: comeu mais um pouco, saboreando sua textura macia embebida na calda grossa açucarada. 

A jovem mulher se sentia especialmente feliz nos últimos dias, porém aquele calor estava lhe dando mais sono que o habitual. Foi até a varanda, sentou na cadeira de vime que havia ali e ficou olhando a algazarra das crianças brincando na rua. Um menino branquinho e miúdo chutava uma bola para outro maior e mais corpulento. Do outro lado da calçada, duas meninas pulavam corda com suas marias-chiquinhas balançando de um lado para o outro. “Como são livres” – pensou. Sentiu um desconforto no estômago e rapidamente passou as mãos pela barriga, massageando-a. Se ajeitou na cadeira e sentiu uma brisa suave bater em seu rosto. Os olhos foram serenando, serenando, serenando… 

Estava numa relva de grama verde brilhante. O vestido florido se misturava ao canteiro colorido de toda espécie de flores e ela e aquele lugar eram um. Ela andava livre, embalada por uma brisa suave enquanto perfumes misturados entravam vagarosamente por suas narinas. Era um aroma agradável e marcante que a fazia pensar que se a vida tivesse cheiro, seria aquele. O sol aquecia a pele macia de seus vinte e poucos anos e lhe trazia uma energia inebriante que a fazia querer dançar junto aos pássaros que voavam baixo ao seu redor. No meio de tanta euforia, uma pequena menina se aproximou. Era branca como os pequenos jasmins que haviam ficado pelo caminho. Acima da franja lisa e preta, trazia uma tiara azul com um grande laço. O vestido branco rendado era rodado e compunha com a meia-calça branca e os sapatos da mesma cor da tiara uma imagem angelical. Em seu ombro, trazia pousada uma bela borboleta que alternava suas cores – ora azulada, ora esverdeada – conforme os raios de sol iluminavam suas asas. Nas mãos, a pequena menina trazia uma rosa branca, que ofereceu à mulher. Ela aceitou e prontamente cheirou suas pétalas. Com carinho, lembrou-se do cheiro de sua mãe e sentiu-se muito agradecida. “Quem é você?”, perguntou em tom suave, encantada pela gentileza. Os grandes olhos castanhos da menina penetraram os da mulher e instantaneamente todos os espaços de seu corpo inundaram-se daquela presença alegre e pueril. E então, a pequena menina segurou sua mão e respondeu “Sou Amor” e a puxou levemente em direção a um longo caminho que se abria à frente delas, convidando-a para uma caminhada.

Acordou 

Preenchida.    

Os dias se seguiram e a mulher se preenchia cada vez mais: um sapatinho, um cueiro, um pequeno moisés. Um mosqueteiro. Ansiedade. Muitas dúvidas. Medo. Desejos.

Alegria! 

Alegria! 

Alegria! 

E assim a vida seguiu.   

Era mais uma tarde quente naqueles dias que se preparavam para a chegada da Primavera. Salete enxugou o suor da testa e se sentou em uma cadeira próxima à janela. Olhou para os calcanhares e reparou como estavam inchados. Apesar disso, sentia-se muito disposta. Pela janela, observou o sol brilhante no céu azulado. Não havia nuvens e como sempre não ventava. Tudo estava comum e estático naquele dia, até um bando de andorinhas surgir bailando em revoada. Eram muitas aves que performavam desenhando formas difusas  no céu de Salete, balançando pra lá e pra cá. Ela nunca havia observado aquele fenômeno por ali e assistiu de camarote o espetáculo íntimo que as aves faziam para ela. Pensou na sabedoria delas de sempre saber quando retornar às origens. Uma lágrima escorreu por sua face. 

Era a hora.

Deitada na maca, ouviu pela primeira vez o choro de seu bebê. Era alto e ansioso. Cheio de vida. Em uma fração de segundos, aquele choro despertou na mulher uma felicidade que logo foi substituída pela necessidade pungente de ter a criança em seus braços. Sentiu preocupação e o tempo que demoraram para pesá-la pareceu-lhe uma eternidade. Dra Nelma colocou a menina de cabelos pretos e arrepiados aninhada no peito de Salete. Uma grande euforia inundou a mulher. 

Tornara-se mãe.

Olharam-se profundamente: menina e mãe fundiram-se numa só presença.

“Minha menina! Bem vinda, Vanessa! Minha pequena borboleta”.

Era um janeiro quente como todos os outros. 

Vanessa estava animadíssima. De cima da escrivaninha pegou uma pasta e começou a analisar os papéis acumulados. Aqueles que não tinham mais serventia eram descartados e apenas os que tinham alguma utilidade se tornavam dignos de serem armazenados, como seu diploma de faculdade. Se deparou com algumas anotações de mudanças que precisava fazer na sua dissertação de mestrado. Como fora difícil terminá-la. Se lembrou de quantas vezes ficara angustiada por não conseguir avançar na escrita como deveria. Na época, parecia que ela nunca mais terminaria aquilo! Nada disso importava mais. No fim das contas, terminou e agora tinha preocupações bem maiores que o mestrado. Rasgou mais um papel inútil quando a campainha tocou interrompendo suas divagações.

“Miga, que saudade!” – Ana a abraçava apertado sem querer soltar.

“Ai, miga, também estava! E aí, como foi em Franca?”

“Tudo bem, Van. Os meninos estão enormes, um mais fofo que o outro! E você, como tem se sentido?”

“Tô ótima! Amanhã quero ir no zoológico em Americana fazer umas fotos.”

“Nossa, ta animada mesmo! Quanto tempo já, miga?”

“42 semanas!”

“Uau!” Ana olhava para a barriga da amiga. Estava enorme! Cheinha de amor, ela pensava…

“E, você, miga, está animada com a nova escola?”

“Ai, Van, sinceramente não tô não… Não consigo imaginar não te encontrar mais todos os dias…”- engoliu em seco.

Por um minuto, uma melancolia tomou conta da sala. Vários flashes dos momentos compartilhados pelas duas voltaram e Ana se lembrou do dia em que se conheceram.

Era o primeiro dia de trabalho na escola nova e ela se sentia muito deslocada. Ninguém a olhou ou falou com ela, exceto Vanessa. Naquele dia, foram juntas ao ponto de ônibus, que ela não sabia onde ficava. Desse momento em diante, não se largaram mais. Compartilhavam os almoços e se sentavam juntas nos intervalos e reuniões semanais. Nos dias que antecediam as férias escolares e pouquíssimos alunos compareciam às aulas, davam logo um jeito de se juntar. Conversavam sobre todas as coisas. Uma falava sobre a dificuldade de terminar a dissertação do mestrado e o desejo de ser mãe. A outra falava sobre o desejo de largar tudo e viajar pelo mundo. Vanessa explicava fatos históricos para Ana e essa lhe tirava dúvidas sobre o novo acordo ortográfico. Trocavam histórias de família. Trocavam receitas de pão e bolo. Trocavam segredos. 

Às vezes, não trocavam nada. Apenas ficavam sentadas na sala dos professores esperando dar o horário.

“E do que é esse bolo que você trouxe hoje, Ana?” – perguntou Marcos enquanto servia o café.

“De cerveja preta com chocolate. Receita nova.”

“Nossa, tá muito bom!” – enfiou outro pedaço na boca bebendo um gole do café fresco logo em seguida.   

Foi num domingo à tarde, meses antes, que os amigos confidenciaram a Ana, ansiosos e felizes, a chegada do bebê. Em outro domingo, no almoço de aniversário de Marcos, ela também estava presente quando revelaram a novidade para a família. Também acompanhou a amiga em um ultrassom. Enxergou um monte de borrões na pequena tela e não entendeu nada do que viu, mas achou a criança lindíssima! Se apaixonou por ela ali! 

“Miga, já vou! Passei mesmo para te dar um abraço, antes do seu momento. Vai dar tudo certo!”

Se abraçaram longamente.

Vanessa sentia a água envolver seu corpo num balançar suave que desaparecia com a chegada da contração forte que começava na altura da lombar e se espalhava como uma rajada, alcançando todos os cantos de seu corpo. Por um momento, o clarão da dor a cegou e um ruído a impediu de ouvir o marido e a parteira que estavam ali. Queria voltar e se concentrou para ouvir o mundo a seu redor. Ao longe, ouviu cavalos correndo. Pelo barulho, eles chegavam cada vez mais perto. Prestou atenção muito alerta: não eram cavalos, mas o pulsar de seu próprio coração. A dor começou a aumentar, aumentar e aumentar ainda mais.

De repente, apenas o barulho do riacho correndo.

Sentada em uma pedra, descansava os pés na água. Atrás de si, montanhas altas protegiam aquele vale de pedras e sonhos. A água transparente do riacho permitia ver pequenas pedras brancas em seu fundo. A moça ajeitou seu vestido longo para que a barra não se molhasse ainda mais e contemplou a cachoeira que jorrava forte ali perto. Ela abaixou uma das mãos até a água e percebeu seu fluxo rápido e certeiro. O rio sabia para onde correr. Sentiu uma pequena mão em seu ombro e virou seu rosto para ver. Um menino pequeno, branco como as pedras do riacho e de enormes olhos pretos de cantos amendoados a olhava com semblante alegre. Tinha lindos dentes que compunham um sorriso largo. Vestia uma camiseta listrada de branco e vermelho e na cabeça trazia um chapéu de pirata improvisado feito de papel. Ele, então, apontou para um caminho escondido que se abria no bosque de frondosas e altas árvores no lado oposto da cachoeira. Ela observou o bosque intrigada querendo saber o que havia para além daquelas árvores. Devolveu o olhar aos olhos esperançosos do menino, se levantou, lhe pegou pela mão e andou com ele até a entrada do bosque. Duas árvores entrelaçavam suas copas formando um arco. Ela espichou o olhar na tentativa de reconhecer o que havia à frente, mas o caminho era curvo e escuro e dali não se podia ver. Exitou por um momento. O menino a puxou pela mão insistindo na entrada. Olhou novamente lá para dentro e percebeu que não podia deixá-lo entrar sozinho. Respirou fundo e cedeu.

Seguiram…

Sentada na banqueta, apoiava as costas no peito do marido. Os dedos dela entrelaçados aos dele apertavam forte suas mãos na mesma proporção em que fazia força para trazer o menino ao mundo. O corpo exaurido parecia querer fraquejar e ceder a qualquer momento. Empurrou uma vez mais e parou: algo estava faltando.

 A parteira levantou o menino que chorava alto até o peito da mãe, que o pegou apalpando sua cabeça, mãos e pés. Lágrimas agradecidas dançaram por sua face.

O vazio que sentira em seu ventre poucos minutos antes preenchia agora seu colo. 

Olhou fundo nos olhos do menino e com ele tornou-se um. 

Partiram, então, em revoada.