Diário de classe

Mais uma vez a chuva alaga tudo e transforma a cidade em um caos. Nas redes, a corrida eleitoral para a capital paulista ferve. Olho para o poste ao meu lado e vejo pregado nele uma dica de como fazer o bolo crescer. Me interesso. Percebo algumas gotas grossas caírem do céu e penso alto “Caralho, esqueci o guarda-chuva”. Volto correndo para casa para buscar. No caminho, a chuva engrossa e logo na entrada de casa me deparo com uma barata morta e encharcada, presa numa das grades do portãozinho branco que dá acesso ao cômodo de fundo arduamente alugado com o ordenado de professora. Chuto a barata para longe sentindo nojo enquanto penso que a calha deve estar entupida de novo. Ando rapidamente pelo corredor estreito esbarrando nas paredes descascadas e escurecidas, tentando fugir das goteiras.

Quando abro a porta do cômodo que me serve de quarto/sala e escritório, já estou encharcada. Vou até o banheiro, tiro toda a roupa e coloco dentro de uma sacola. Estou com pressa e não tenho tempo de arrumar isso agora. Enxáguo meu corpo rapidamente, boto uma roupa seca e vou saindo quase esquecendo o guarda-chuva. Corro apressada para não perder o ônibus.

Na esquina, sou interrompida por uma fila de pessoas esperando abrir o sinal. É dia de feira e enquanto espero pelo demorado sinal, observo uma mulher tentando equilibrar várias sacolas em um braço e uma criança pequena no outro. A menininha usa um moletom amarelo e esconde o rostinho no peito da mãe. Enquanto isso, com o mesmo braço que segura a menina, a mãe  dança com um guarda-chuva para lá e para cá tentando protegê-la dos pingos gelados. Em São Paulo não dá mesmo para esquecer o guarda-chuva. Nunca.

O sinal abre e atravesso junto com a multidão. Piso numa poça e minha meia se encharca. “Droga, Minha favorita!” – penso dessa vez sem emitir ruídos e imagino o rosto de um sorridente Augusto fantasiado de dinossauro estampando meu tornozelo.

Subo no ônibus apressada e me espremo entre as pessoas, tentando encontrar onde segurar. Acho que nem as laranjas são tão espremidas quanto os pobres em ônibus lotados, ainda mais nos horários de pico. Meu trajeto é longo. Pego ainda mais duas conduções até chegar à escola em que trabalho.   

Entro pelo portão azul de pintura desgastada, cumprimento alguns alunos que já estão por ali e me apresso para a sala dos professores. Guardo rapidamente as coisas no armário e sigo para a sala do 9ºB. O professor do período da manhã deixou a lousa sem apagar. Detesto isso! Apago com um pouco mais de força que o habitual e uma parte da tinta verde dela se despedaça. 

“Ihhh, ta nervosiiinhaaa heim, dona?” Ouço Jean gritar do fundo da sala enquanto empina a cadeira para trás. “Arruma essa cadeira, Jean!” Uso a lousa mesmo com o pedaço descascado. Se tem uma coisa que professor de rede pública sabe, é fazer as coisas com o que tem. 

No intervalo, acesso o Instagram enquanto como uma maçã. Leio a publicação de um colega sobre novos cortes na educação. O coordenador entra na sala e me enche s saco pedindo as notas do bimestre. Ainda não fechei. Passei o fim de semana fazendo a revisão de uma tese para ganhar um extra e pagar a conta de luz que já está atrasada há mais de dois meses. “Não podem cortar minha luz”, eu penso enquanto ouço o sinal marcando o fim do intervalo. Começo a me levantar da mesa ao mesmo tempo em que digo ao coordenador insistente que entrego as notas até o fim da semana. “Sem falta!” – ele retruca.

No caminho de volta para casa tem menos gente no ônibus e consigo me sentar. Encosto a cabeça na janela e observo a noite escura. Meus olhos se fecham repetidas vezes em piscadas longas devido ao cansaço excessivo e vou tentando fazer uma lista mental de tudo que preciso fazer naquela noite ainda: “Fechar as notas dos nonos anos, revisar a tese do historiador, preparar a aula do 1ºC…”   

Finalmente chego em casa.

Tiro rapidamente o tênis e a meia que passaram o dia molhados. Coloco o tênis atrás da geladeira e a meia na sacola junto com as outras roupas molhadas. Me sento na privada para tirar o resto das roupas porque o cansaço é tanto que não quero passar mais um minuto em pé. Sinto minhas costas se contraírem em pequenos focos de dor. Tento espichar a coluna para ver se melhora “Preciso fazer exercícios”- lamento para mim mesma. Já nua, deixo a água escorrer bem quente e envolver todo meu corpo gelado e cansado. Vagarosamente, ensaboo meus cabelos. Vou massageando minha cabeça de olhos fechados embaixo da água e aprecio cada momento. Ouço um barulho surdo, e abro os olhos sobressaltada. “Será que é tiro?”Tudo está escuro e a água agora está gelada. Então me dou conta de que é o disjuntor que queimou de vez. Primeiro fico aliviada, mas logo em seguida me sinto nervosa por ter meu único momento de prazer interrompido, Fecho rapidamente o chuveiro porque já estou com frio novamente. Com a lanterna do celular, ilumino o curto caminho entre o banheiro e a cozinha. Acendo uma das bocas do fogão usando um palito de fósforo e encho uma panela de água que esquento para terminar de lavar meu cabelo. Aproveito para ferver água para fazer um chá de hortelã.

Visto uma par de meias seco, dessa vez uma estampa romântica que contraria toda a dureza do dia: pequenas flores rosas se destacam sobre um fundo cinza. Olho a tela do celular e vejo que são 9 da noite. Estou completamente no escuro e não há o que fazer enquanto o problema do disjuntor não for resolvido. Me dou por vencida e deito na cama sem culpa por não conseguir realizar os afazeres da minha lista. Graças à falta de luz, finalmente posso dormir em paz e sonhar com a live do Caetano e com o bolo crescendo.

Revoada

Era verão. Em Leme, sempre faz muito calor nessa época. O céu estava bem azul e não tinha uma nuvem para contar história. Ansiosa, Salete abriu a geladeira em busca da garrafa de água. Avistou no fundo dela o doce de mamão que havia feito no dia anterior. Ela havia colocado ali meio escondido porque estava comendo demais. Não resistiu: comeu mais um pouco, saboreando sua textura macia embebida na calda grossa açucarada. 

A jovem mulher se sentia especialmente feliz nos últimos dias, porém aquele calor estava lhe dando mais sono que o habitual. Foi até a varanda, sentou na cadeira de vime que havia ali e ficou olhando a algazarra das crianças brincando na rua. Um menino branquinho e miúdo chutava uma bola para outro maior e mais corpulento. Do outro lado da calçada, duas meninas pulavam corda com suas marias-chiquinhas balançando de um lado para o outro. “Como são livres” – pensou. Sentiu um desconforto no estômago e rapidamente passou as mãos pela barriga, massageando-a. Se ajeitou na cadeira e sentiu uma brisa suave bater em seu rosto. Os olhos foram serenando, serenando, serenando… 

Estava numa relva de grama verde brilhante. O vestido florido se misturava ao canteiro colorido de toda espécie de flores e ela e aquele lugar eram um. Ela andava livre, embalada por uma brisa suave enquanto perfumes misturados entravam vagarosamente por suas narinas. Era um aroma agradável e marcante que a fazia pensar que se a vida tivesse cheiro, seria aquele. O sol aquecia a pele macia de seus vinte e poucos anos e lhe trazia uma energia inebriante que a fazia querer dançar junto aos pássaros que voavam baixo ao seu redor. No meio de tanta euforia, uma pequena menina se aproximou. Era branca como os pequenos jasmins que haviam ficado pelo caminho. Acima da franja lisa e preta, trazia uma tiara azul com um grande laço. O vestido branco rendado era rodado e compunha com a meia-calça branca e os sapatos da mesma cor da tiara uma imagem angelical. Em seu ombro, trazia pousada uma bela borboleta que alternava suas cores – ora azulada, ora esverdeada – conforme os raios de sol iluminavam suas asas. Nas mãos, a pequena menina trazia uma rosa branca, que ofereceu à mulher. Ela aceitou e prontamente cheirou suas pétalas. Com carinho, lembrou-se do cheiro de sua mãe e sentiu-se muito agradecida. “Quem é você?”, perguntou em tom suave, encantada pela gentileza. Os grandes olhos castanhos da menina penetraram os da mulher e instantaneamente todos os espaços de seu corpo inundaram-se daquela presença alegre e pueril. E então, a pequena menina segurou sua mão e respondeu “Sou Amor” e a puxou levemente em direção a um longo caminho que se abria à frente delas, convidando-a para uma caminhada.

Acordou 

Preenchida.    

Os dias se seguiram e a mulher se preenchia cada vez mais: um sapatinho, um cueiro, um pequeno moisés. Um mosqueteiro. Ansiedade. Muitas dúvidas. Medo. Desejos.

Alegria! 

Alegria! 

Alegria! 

E assim a vida seguiu.   

Era mais uma tarde quente naqueles dias que se preparavam para a chegada da Primavera. Salete enxugou o suor da testa e se sentou em uma cadeira próxima à janela. Olhou para os calcanhares e reparou como estavam inchados. Apesar disso, sentia-se muito disposta. Pela janela, observou o sol brilhante no céu azulado. Não havia nuvens e como sempre não ventava. Tudo estava comum e estático naquele dia, até um bando de andorinhas surgir bailando em revoada. Eram muitas aves que performavam desenhando formas difusas  no céu de Salete, balançando pra lá e pra cá. Ela nunca havia observado aquele fenômeno por ali e assistiu de camarote o espetáculo íntimo que as aves faziam para ela. Pensou na sabedoria delas de sempre saber quando retornar às origens. Uma lágrima escorreu por sua face. 

Era a hora.

Deitada na maca, ouviu pela primeira vez o choro de seu bebê. Era alto e ansioso. Cheio de vida. Em uma fração de segundos, aquele choro despertou na mulher uma felicidade que logo foi substituída pela necessidade pungente de ter a criança em seus braços. Sentiu preocupação e o tempo que demoraram para pesá-la pareceu-lhe uma eternidade. Dra Nelma colocou a menina de cabelos pretos e arrepiados aninhada no peito de Salete. Uma grande euforia inundou a mulher. 

Tornara-se mãe.

Olharam-se profundamente: menina e mãe fundiram-se numa só presença.

“Minha menina! Bem vinda, Vanessa! Minha pequena borboleta”.

Era um janeiro quente como todos os outros. 

Vanessa estava animadíssima. De cima da escrivaninha pegou uma pasta e começou a analisar os papéis acumulados. Aqueles que não tinham mais serventia eram descartados e apenas os que tinham alguma utilidade se tornavam dignos de serem armazenados, como seu diploma de faculdade. Se deparou com algumas anotações de mudanças que precisava fazer na sua dissertação de mestrado. Como fora difícil terminá-la. Se lembrou de quantas vezes ficara angustiada por não conseguir avançar na escrita como deveria. Na época, parecia que ela nunca mais terminaria aquilo! Nada disso importava mais. No fim das contas, terminou e agora tinha preocupações bem maiores que o mestrado. Rasgou mais um papel inútil quando a campainha tocou interrompendo suas divagações.

“Miga, que saudade!” – Ana a abraçava apertado sem querer soltar.

“Ai, miga, também estava! E aí, como foi em Franca?”

“Tudo bem, Van. Os meninos estão enormes, um mais fofo que o outro! E você, como tem se sentido?”

“Tô ótima! Amanhã quero ir no zoológico em Americana fazer umas fotos.”

“Nossa, ta animada mesmo! Quanto tempo já, miga?”

“42 semanas!”

“Uau!” Ana olhava para a barriga da amiga. Estava enorme! Cheinha de amor, ela pensava…

“E, você, miga, está animada com a nova escola?”

“Ai, Van, sinceramente não tô não… Não consigo imaginar não te encontrar mais todos os dias…”- engoliu em seco.

Por um minuto, uma melancolia tomou conta da sala. Vários flashes dos momentos compartilhados pelas duas voltaram e Ana se lembrou do dia em que se conheceram.

Era o primeiro dia de trabalho na escola nova e ela se sentia muito deslocada. Ninguém a olhou ou falou com ela, exceto Vanessa. Naquele dia, foram juntas ao ponto de ônibus, que ela não sabia onde ficava. Desse momento em diante, não se largaram mais. Compartilhavam os almoços e se sentavam juntas nos intervalos e reuniões semanais. Nos dias que antecediam as férias escolares e pouquíssimos alunos compareciam às aulas, davam logo um jeito de se juntar. Conversavam sobre todas as coisas. Uma falava sobre a dificuldade de terminar a dissertação do mestrado e o desejo de ser mãe. A outra falava sobre o desejo de largar tudo e viajar pelo mundo. Vanessa explicava fatos históricos para Ana e essa lhe tirava dúvidas sobre o novo acordo ortográfico. Trocavam histórias de família. Trocavam receitas de pão e bolo. Trocavam segredos. 

Às vezes, não trocavam nada. Apenas ficavam sentadas na sala dos professores esperando dar o horário.

“E do que é esse bolo que você trouxe hoje, Ana?” – perguntou Marcos enquanto servia o café.

“De cerveja preta com chocolate. Receita nova.”

“Nossa, tá muito bom!” – enfiou outro pedaço na boca bebendo um gole do café fresco logo em seguida.   

Foi num domingo à tarde, meses antes, que os amigos confidenciaram a Ana, ansiosos e felizes, a chegada do bebê. Em outro domingo, no almoço de aniversário de Marcos, ela também estava presente quando revelaram a novidade para a família. Também acompanhou a amiga em um ultrassom. Enxergou um monte de borrões na pequena tela e não entendeu nada do que viu, mas achou a criança lindíssima! Se apaixonou por ela ali! 

“Miga, já vou! Passei mesmo para te dar um abraço, antes do seu momento. Vai dar tudo certo!”

Se abraçaram longamente.

Vanessa sentia a água envolver seu corpo num balançar suave que desaparecia com a chegada da contração forte que começava na altura da lombar e se espalhava como uma rajada, alcançando todos os cantos de seu corpo. Por um momento, o clarão da dor a cegou e um ruído a impediu de ouvir o marido e a parteira que estavam ali. Queria voltar e se concentrou para ouvir o mundo a seu redor. Ao longe, ouviu cavalos correndo. Pelo barulho, eles chegavam cada vez mais perto. Prestou atenção muito alerta: não eram cavalos, mas o pulsar de seu próprio coração. A dor começou a aumentar, aumentar e aumentar ainda mais.

De repente, apenas o barulho do riacho correndo.

Sentada em uma pedra, descansava os pés na água. Atrás de si, montanhas altas protegiam aquele vale de pedras e sonhos. A água transparente do riacho permitia ver pequenas pedras brancas em seu fundo. A moça ajeitou seu vestido longo para que a barra não se molhasse ainda mais e contemplou a cachoeira que jorrava forte ali perto. Ela abaixou uma das mãos até a água e percebeu seu fluxo rápido e certeiro. O rio sabia para onde correr. Sentiu uma pequena mão em seu ombro e virou seu rosto para ver. Um menino pequeno, branco como as pedras do riacho e de enormes olhos pretos de cantos amendoados a olhava com semblante alegre. Tinha lindos dentes que compunham um sorriso largo. Vestia uma camiseta listrada de branco e vermelho e na cabeça trazia um chapéu de pirata improvisado feito de papel. Ele, então, apontou para um caminho escondido que se abria no bosque de frondosas e altas árvores no lado oposto da cachoeira. Ela observou o bosque intrigada querendo saber o que havia para além daquelas árvores. Devolveu o olhar aos olhos esperançosos do menino, se levantou, lhe pegou pela mão e andou com ele até a entrada do bosque. Duas árvores entrelaçavam suas copas formando um arco. Ela espichou o olhar na tentativa de reconhecer o que havia à frente, mas o caminho era curvo e escuro e dali não se podia ver. Exitou por um momento. O menino a puxou pela mão insistindo na entrada. Olhou novamente lá para dentro e percebeu que não podia deixá-lo entrar sozinho. Respirou fundo e cedeu.

Seguiram…

Sentada na banqueta, apoiava as costas no peito do marido. Os dedos dela entrelaçados aos dele apertavam forte suas mãos na mesma proporção em que fazia força para trazer o menino ao mundo. O corpo exaurido parecia querer fraquejar e ceder a qualquer momento. Empurrou uma vez mais e parou: algo estava faltando.

 A parteira levantou o menino que chorava alto até o peito da mãe, que o pegou apalpando sua cabeça, mãos e pés. Lágrimas agradecidas dançaram por sua face.

O vazio que sentira em seu ventre poucos minutos antes preenchia agora seu colo. 

Olhou fundo nos olhos do menino e com ele tornou-se um. 

Partiram, então, em revoada.

Clarice desnecessária

Dedico este texto a Clarice, Rosilene e Vinícius, sempre muito necessários

 “Outra verdade: Laura é bastante burra. Tem gente que acha ela burríssima, mas isto também é exagero: quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos (LISPECTOR, C. A vida íntima de Laura)”

“Rô, Rô, fica aqui na minha sala para eu ir ao banheiro.” 

E escapuli para a sala dos professores para respirar por cinco minutos. Com o corpo agitado, tomei um copo de água e olhei a quadra pela janela. Meu olhar se deteve nas grades azuis que cercavam toda a escola, o que fez meus lábios se contraírem. Para além das grades, vislumbrei uma grande e frondosa árvore que ficava do lado de fora. Por alguns segundos, me perdi nos meus pensamentos e imaginei como ela devia se sentir: bela, grande, livre. Queria subir nos seus galhos e me sentir parte dela por alguns minutos. Sentir o vento inundar meu corpo da mesma forma que envolvia as folhas de sua copa num suave balançar. 

Que coisas ela devia saber das gentes que ali viviam? Que traquinagem das crianças mais novas teria ela presenciado? Que segredos saberia ela dos adolescentes do oitavo ano, que só queriam saber de sentar em bando nas aulas de português? Quem tava pegando quem? Será que ela observava a expressão no rosto das pessoas quando elas chegavam? 

Queria estar lá fora.

Lembrei que precisava voltar para sala e entrei rapidamente no banheiro. Sentei no vaso sanitário, coração acelerado, 11h35 e parecia que o dia não ia acabar nunca. Lembrava da doutora Daniela e respirava, como ela havia me recomendado. 

 Enquanto isso, no 6ºB, Rô insistia com Michael para abrir o caderno. 

“Vamos lá, eu vou te ajudar!”- disse ela num tom calmo, mas ao mesmo tempo muito animado, como se abrir o caderno e copiar a lição fossem a melhor coisa do mundo.

 “Vai, Gabriel, você também! Abre seu caderno. Isso, agora vamos escrever a data.”

“Que dia é hoje?”

“10 de junho.”

“Junho é seis ou sete?” – perguntou um dos meninos com o lápis a postos.

 “Como assim: seis ou sete? Você não sabe, Michael? Um menino inteligente como você? Não acredito!” e fez uma cara espantada que os obrigou a pensar.

“É sete, é sete!” – gritou afoito Gabriel. 

“Sete? Será que é sete?”, ela indagou provocando. Olharam-se sem se atrever a responder, como se uma resposta errada pudesse arruinar tudo. Era uma questão de vida ou morte para eles. Então, a professora emendou uma estratégia “Vamos contar” – disse recitando os meses do ano e contando nos dedos para eles “Janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho…” 

“É seis! É seis!” gritou animado Vinícius, o outro integrante do trio e quem Rosilene conhecia bem.

Vinícius sempre me abraçava quando me via chegar. Era um abraço firme e envolvente. Nunca queria soltar. Às vezes eu me sentia incomodada porque achava que um abraço tão longo não era adequado ao contexto, mas não queria magoar o menino, já muito machucado nessa instituição social chamada escola. Geralmente, esse momento afetuoso era interrompido por outro aluno que também queria um abraço, ou por alguma das meninas que queria saber o que teria de lição.

Todos os dias eu era salva por pequenos momentos: um abraço, um segredo que uma aluna me confiava, a troca com outros professores na hora do intervalo e o cafezinho que eu conseguia tomar porque a Rô ficava na minha sala por alguns minutos.

Apesar de ela ser professora de educação especial, dispensava uma atenção singular a qualquer um que necessitasse de apoio, fosse aluno ou professor. Aquela mulher loira de olhos castanhos e olhar sereno sempre tinha uma palavra amiga e um sorriso nos lábios. Ela me despertava um certo fascínio que não sei explicar de onde vinha. 

Apesar de doce, era muito firme com os alunos. Na verdade, sua presença trazia naturalmente uma certa ordem ao ambiente, mesmo entre nós professores. Não sei exatamente se isso acontecia pelos sessenta anos que definitivamente não aparentava ter, ou se por sua postura de nunca julgar as escolhas alheias. O fato é que a Rô contribuía bastante para acalmar minha ansiedade. Eu gostava de saber que ela estava na escola, mesmo que estivesse em outra sala.

“A prova é hoje, professora” – pergunta Bruna, num misto de ansiedade e preocupação.

“É sim. Tá preparada?”

“Acho que estou!”

Mas era claro que ela estava. Sem dúvida nenhuma, nasceu preparada.

Os alunos ajeitaram as cadeiras, sentaram, fizeram barulho, falaram demais, ralhei, se aquietaram, entreguei as provas, fizeram mais barulho, falaram mais, ralhei mais, se acalmaram. Eu disse que ninguém ia reprovar por causa de uma prova e que deveriam responder o melhor que conseguissem. 

Raro momento de silêncio. Os alunos liam.

“Vini, vou ler uma história para você, tá?” – diz Rosilene enquanto se ajeita na cadeira almofadada da biblioteca. 

“Tá!”

“Presta bastante atenção que eu vou te fazer perguntas sobre ela. Olha, lá, heim? Quero ver se você está atento!”

“Tá!”

“A história chama A vida íntima de Laura. Quem será que é Laura, hein, Vinícius?  

“Uma mulher” – responde ele enquanto esfrega as mãos nas coxas e balança as pernas.

“Será que é uma mulher? Vamos descobrir…” e assim faz a leitura do texto de Clarice Lispector que conta a vida de uma galinha, segundo o narrador, muito simpática e burra.

O menino ajeita os óculos e olha para o tampo redondo e azul da mesa enquanto Rosilene lhe faz perguntas a respeito da história que acabara de ler. Ele é um ótimo ouvinte e entendeu tudo o que tinha naquela narrativa. Entendeu mesmo. Tudinho. Entendeu até demais.

“Vini, olha a Clarice Lispector aqui” – e aponta para a imagem dela no papel antes de começar a ler uma pequena biografia da autora.

O menino olha com desdém.

“Vini, foi ela quem escreveu o texto que acabei de ler. O que você acha dela?”

“Desnecessária!”

“Desnecessária??” – se espantou a professora.

“É: desnecessária!” – respondeu claramente irritado.

“Mas por que desnecessária?” – indagou, ainda incrédula com a resposta do menino.

“Porque ela fica falando da vida dos outros e quem fala da vida dos outros é desnecessária!”

O ano é 1997. Da janela do quarto eu olho as nuvens no céu enquanto tiro meu tênis preto e surrado. Havia sido mais uma manhã comum na escola. “Não se esqueçam da prova de leitura, amanhã”, nos lembrava a professora Célia, enquanto ajeitava sua caixa de giz sobre os diários e seguia para a outra sala. O dia tinha amanhecido aberto, mas o céu já estava todo coberto por nuvens escuras. Deito na minha cama e abro meu livro muito curiosa para saber se os dois meninos vão conseguir escapar da onça. Sinto um cheiro de chuva e ouço o barulho da água gotejando do telhado. A onça se aproxima e eles não têm pra onde fugir. Os pelos do meu braço se arrepiam e eu fecho os olhos e enfio o livro na cara pensando alto “E agora?”. A chuva engrossa e ouço os relâmpagos rasgando o céu. Eu já não sei mais se chove no jardim que está depois da janela ou na floresta à minha frente. Preciso enfrentar a onça, mas tenho medo de ler mais uma sentença e ela me pegar. Amanhã tem prova: preciso terminar. Sento na cama, me ajeito numa postura rígida apoiada na cabeceira de madeira, tomo coragem e sigo.

10:22. Intervalo. Bia entra na sala com seu sorriso largo e sua animação típica de professores de educação física. Fecha a porta atrás de si para abafar a algazarra das crianças no intervalo e dispara “Gente, vocês acreditam que o Paulinho…” e já emenda a história de alguém que subiu no telhado, ou pulou a grade da escola para buscar a bola, ou ainda pulou a grade pra dentro da escola porque não aceitou a suspensão que levou. Me sirvo um café fumegante que tomo sem fome nem vontade, só para distrair a ansiedade que me habita por ter que voltar para a sala dali a pouco. Sentada ao meu lado, Rô come seu mamão com granola e me conta entre risos a história da Clarice desnecessária.

Rio alto. Penso em Vinícius e na nossa luta diária para aprender a ler. Sí-la-ba por sí-la-ba. Palavra por palavra.

Sentada ao lado dele, aponto as imagens no livro que lemos juntos tentando estabelecer uma relação entre as palavras e seus sons e significados. Nada. Não sei alfabetizar. Ele me pergunta sobre minha vida, e eu sobre a dele. Eu conto que moro no Centro e ele me conta do jogo que o distrai quando está sozinho em casa, sem os amigos. Michael se aproxima, logo Gabriel também, depois Carlos. Clara e Bruna chegam logo em seguida e já nem me lembro mais da lição que tinham que fazer. Uma conversa aleatória e pulsante sobre a vida se inicia e já não há mais nenhuma diferença entre mim e aqueles meninos e meninas: somos puro sonho.

Bate o sinal e minha tentativa de leitura fracassada é encerrada pelo fim da aula.    

 Vinícius não sabe ler e isso me dói.

Chego em casa, almoço rapidamente e me jogo no sofá. Fico pensando na prova de Vinicius.

“Desnecessário, desnecessário… Clarice desnecessária. Desnecessário mesmo é o diagnóstico que deram para ele, isso sim!”. Adormeço.

“Vini, vamos subir na árvore?” pergunta Ana, já colocando a perna roliça a postos. O pé vacila por um minuto e seu tênis preto e surrado raspa no tronco fazendo barulho. O amigo a ajuda, empurrando. 

“Consegui! Passa meu livro! Isso! Agora vem!” e estende o braço ao amigo o ajudando a subir também. A vida é uma troca, como bem diz a professora Célia.

Em cima da árvore, os dois sentem uma leve brisa. O cheiro das folhas os envolve. O menino ajeita os óculos e seu olhar se detém nas grades que cercam a escola. Depois delas, está a quadra.

“Hoje na educação física, o Paulinho subiu no telhado… A Bia ficou pistola!”   

“Hahaha. Eu gosto da Bia. Ela deixa as meninas jogarem junto com os meninos”

“Acho certo. Tem menina que joga muito melhor do que os meninos”

“É mesmo. Como chama aquela menina da outra sala, que joga super bem?

“Eu sei de quem você está falando, é da menina do 6º A. Não sei como ela chama. Sei que a professora de matemática não gosta dela”

A menina se apoia no galho grosso da árvore e abre o livro. Se sente segura ali. A árvore é gentil com ela. 

O menino indaga: “Do que fala essa história?”

“De uma galinha!”

“De uma galinha? E o que tem de interessante nisso?”

“Não sei dizer, mas o jeito que ela descreve a galinha parece que tá falando de uma pessoa”

“Lê pra mim?”

O coração da menina se aperta. Ele é tão gentil! Mas não consegue ler. Dizem que ele tem laudo. Que raios é isso? – ela pensa. Começa a leitura e quando chega numa parte que diz que a galinha é burra, o menino se enfurece:

“Isso não é justo! Não dá para ficar falando por aí que ela é burra, mesmo se ela for, ninguém tem nada a ver com isso! Que história boba!”

O interfone toca. Acordo sobressaltada. Entrega de livro.

Sentada no sofá, enquanto abro o pacote de livros que comprei na semana anterior, percebo a associação que Vinícius fez entre o nome que um especialista qualquer deu para sua dificuldade de acompanhar as aulas e a condição de Laura no galinheiro.

Tirou 10.

Empatia extrapola qualquer currículo escolar.