Diário de classe

Mais uma vez a chuva alaga tudo e transforma a cidade em um caos. Nas redes, a corrida eleitoral para a capital paulista ferve. Olho para o poste ao meu lado e vejo pregado nele uma dica de como fazer o bolo crescer. Me interesso. Percebo algumas gotas grossas caírem do céu e penso alto “Caralho, esqueci o guarda-chuva”. Volto correndo para casa para buscar. No caminho, a chuva engrossa e logo na entrada de casa me deparo com uma barata morta e encharcada, presa numa das grades do portãozinho branco que dá acesso ao cômodo de fundo arduamente alugado com o ordenado de professora. Chuto a barata para longe sentindo nojo enquanto penso que a calha deve estar entupida de novo. Ando rapidamente pelo corredor estreito esbarrando nas paredes descascadas e escurecidas, tentando fugir das goteiras.

Quando abro a porta do cômodo que me serve de quarto/sala e escritório, já estou encharcada. Vou até o banheiro, tiro toda a roupa e coloco dentro de uma sacola. Estou com pressa e não tenho tempo de arrumar isso agora. Enxáguo meu corpo rapidamente, boto uma roupa seca e vou saindo quase esquecendo o guarda-chuva. Corro apressada para não perder o ônibus.

Na esquina, sou interrompida por uma fila de pessoas esperando abrir o sinal. É dia de feira e enquanto espero pelo demorado sinal, observo uma mulher tentando equilibrar várias sacolas em um braço e uma criança pequena no outro. A menininha usa um moletom amarelo e esconde o rostinho no peito da mãe. Enquanto isso, com o mesmo braço que segura a menina, a mãe  dança com um guarda-chuva para lá e para cá tentando protegê-la dos pingos gelados. Em São Paulo não dá mesmo para esquecer o guarda-chuva. Nunca.

O sinal abre e atravesso junto com a multidão. Piso numa poça e minha meia se encharca. “Droga, Minha favorita!” – penso dessa vez sem emitir ruídos e imagino o rosto de um sorridente Augusto fantasiado de dinossauro estampando meu tornozelo.

Subo no ônibus apressada e me espremo entre as pessoas, tentando encontrar onde segurar. Acho que nem as laranjas são tão espremidas quanto os pobres em ônibus lotados, ainda mais nos horários de pico. Meu trajeto é longo. Pego ainda mais duas conduções até chegar à escola em que trabalho.   

Entro pelo portão azul de pintura desgastada, cumprimento alguns alunos que já estão por ali e me apresso para a sala dos professores. Guardo rapidamente as coisas no armário e sigo para a sala do 9ºB. O professor do período da manhã deixou a lousa sem apagar. Detesto isso! Apago com um pouco mais de força que o habitual e uma parte da tinta verde dela se despedaça. 

“Ihhh, ta nervosiiinhaaa heim, dona?” Ouço Jean gritar do fundo da sala enquanto empina a cadeira para trás. “Arruma essa cadeira, Jean!” Uso a lousa mesmo com o pedaço descascado. Se tem uma coisa que professor de rede pública sabe, é fazer as coisas com o que tem. 

No intervalo, acesso o Instagram enquanto como uma maçã. Leio a publicação de um colega sobre novos cortes na educação. O coordenador entra na sala e me enche s saco pedindo as notas do bimestre. Ainda não fechei. Passei o fim de semana fazendo a revisão de uma tese para ganhar um extra e pagar a conta de luz que já está atrasada há mais de dois meses. “Não podem cortar minha luz”, eu penso enquanto ouço o sinal marcando o fim do intervalo. Começo a me levantar da mesa ao mesmo tempo em que digo ao coordenador insistente que entrego as notas até o fim da semana. “Sem falta!” – ele retruca.

No caminho de volta para casa tem menos gente no ônibus e consigo me sentar. Encosto a cabeça na janela e observo a noite escura. Meus olhos se fecham repetidas vezes em piscadas longas devido ao cansaço excessivo e vou tentando fazer uma lista mental de tudo que preciso fazer naquela noite ainda: “Fechar as notas dos nonos anos, revisar a tese do historiador, preparar a aula do 1ºC…”   

Finalmente chego em casa.

Tiro rapidamente o tênis e a meia que passaram o dia molhados. Coloco o tênis atrás da geladeira e a meia na sacola junto com as outras roupas molhadas. Me sento na privada para tirar o resto das roupas porque o cansaço é tanto que não quero passar mais um minuto em pé. Sinto minhas costas se contraírem em pequenos focos de dor. Tento espichar a coluna para ver se melhora “Preciso fazer exercícios”- lamento para mim mesma. Já nua, deixo a água escorrer bem quente e envolver todo meu corpo gelado e cansado. Vagarosamente, ensaboo meus cabelos. Vou massageando minha cabeça de olhos fechados embaixo da água e aprecio cada momento. Ouço um barulho surdo, e abro os olhos sobressaltada. “Será que é tiro?”Tudo está escuro e a água agora está gelada. Então me dou conta de que é o disjuntor que queimou de vez. Primeiro fico aliviada, mas logo em seguida me sinto nervosa por ter meu único momento de prazer interrompido, Fecho rapidamente o chuveiro porque já estou com frio novamente. Com a lanterna do celular, ilumino o curto caminho entre o banheiro e a cozinha. Acendo uma das bocas do fogão usando um palito de fósforo e encho uma panela de água que esquento para terminar de lavar meu cabelo. Aproveito para ferver água para fazer um chá de hortelã.

Visto uma par de meias seco, dessa vez uma estampa romântica que contraria toda a dureza do dia: pequenas flores rosas se destacam sobre um fundo cinza. Olho a tela do celular e vejo que são 9 da noite. Estou completamente no escuro e não há o que fazer enquanto o problema do disjuntor não for resolvido. Me dou por vencida e deito na cama sem culpa por não conseguir realizar os afazeres da minha lista. Graças à falta de luz, finalmente posso dormir em paz e sonhar com a live do Caetano e com o bolo crescendo.