Da janela

Todos os dias me sento perto da janela

Os raios de sol penetram minhas folhas brilhantes 

Me nutrindo de luz

A luz é pra todos

Avisto 

minhas companheiras 

Árvores 

se banhando no mesmo brilho do  

Domingo claro e preguiçoso 

Só consigo ver o topo de suas cabeças

Porque as casas atrapalham 

a vista 

São muitas e moram juntas

verdejando o concreto

duro e 

Pesado.

Pássaros voam 

Pra lá e pra cá

Em cima delas

Performando

no céu gelado do inverno

Desejo estar ali,

Por um momento, 

E saber como é viver em

Comunidade.

Ana vem e borrifa água 

em minhas folhas

Acaricia algumas delas 

Me fala coisas com carinho 

Senta-se ao meu lado

Com as pernas à mostra

Nutrindo-se de

Sol

também.

Me alegro

Vivemos em 

Comunhão

Assimetrias

Eu tinha 9 pra 10 anos e estava tomando banho quando olhei pra minha barriga e percebi que era muito grande. Me lembro nitidamente da cena: a água escorrendo e descendo pela barriga grande e branca que não me deixava ver a vagina, nem as coxas.

Foi a primeira vez que senti nojo de mim.

Bem nessa época, minha mãe estava grávida da minha irmã caçula, que nasceu algum tempo depois. Me lembro claramente da cena de sua chegada na casa: minha mãe a segurando no colo, exibindo muito triunfante a nova criança.

Aquela cabeça redonda e careca me fascinava e ao mesmo tempo me amedrontava. Era difícil para alguém com minha barriga competir com aquele bebê alvo de olhos azuis. 

Eu definitivamente tinha perdido meu lugar no mundo. O mais gozado é que até aquele momento eu nem sabia que tinha um.

O bebê foi crescendo e eu também. Ela se tornou uma menina dócil e eu uma irmã mais velha dedicada. Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele, não é mesmo?

Mas ela nunca foi minha inimiga. Muito pelo contrário: sempre foi minha fã número 1. 

Eu a buscava no pré perto de casa. Quando me via, ela vinha correndo com sua lancheira e me abraçava, apertando seu cabelo loiro e cacheado contra minha barriga fofa. Depois, me dava a mão e voltávamos caminhando para casa e ela me contava sobre as coisas de seu dia pequeno de criança de 5 anos.  Me lembro de uma vez em que ela chegou da escola, devia estar na primeira série, e me mostrou o desenho que tinha feito de nós duas de mãos dadas dentro de um coração. 

Ela me amava.

Eu a amava de volta. 

Um dia, ela simplesmente virou adulta. 

Assim: do nada. 

Mudou até de país.

Hoje me contou que tirou essa foto e que nunca gostou de seu sorriso assimétrico.

Mas essa boca rosada em forma de coração, com dentes grandes e levemente tortinhos é o mesmo sorriso que adorava encontrar minha barriga redonda como a lua na porta do prezinho. 

É com ele que agora divido as preocupações da vida adulta e com quem há 26 anos divido as mesmas histórias de família. 

O amor está mesmo é nas assimetrias.

Você não voltou

Eu esperei

Ia dizer que chegou cesta

Nova

Ia dizer pro defensor 

Como você estava preocupado com a multa

Que queria continuar a vida

tinha me dito,

Thiago 

Te esperei 

Pra juntos contarmos à justiça

Que se não tem dinheiro pro tênis 

Quem dirá pra multa 

“De chinelo não pode entrar lá, dona”

E olhava pro chinelo surrado

Sujo

Como a roupa toda que vestia

Eu sei que você é asseado 

É que sabão em pó não limpa

Miséria

Esperei pra contar pro juiz 

Como apesar da vida dura

Há em você ainda

Doçura

Deve ser do tempo em que era criança 

E vender pano no sinal

Era só um jeito de ficar na barra da saia 

da Vó

Será que você sabe como é

Bonito

Com seus cabelos negros e sobrancelhas 

Espessas?

Andei aflita pelos corredores gelados da

Escola

Te esperei 

Mas você não voltou 

Te escrevo

Thiago

Porque queria te abraçar 

Te escrevo 

Te escrevo porque mereces 

Pelo menos a

Dignidade 

Da poesia.

Quando me olha

Me olha profundo

Tem a idade da minha irmã,

penso

“Liga no fórum pra mim, dona?”

Me olha

Lembro de minha mãe 

querer outro filho além de nós três 

Pede dinheiro pro gás

Outra cesta

Tem fome.

São olhos castanhos

bonitos como os lá de casa,

penso.

Está solto, 

porém as mãos 

Atadas

Mora em lugar algum

Dinheiro para a pena

Não tem 

Quando fala do delito

olha pra baixo

Alô, é do fórum?

pergunta a agente escolar

Ele tem que procurar um defensor público, 

então?

“Nem sei onde fica isso, dona?”

Olha de canto, 

já irritado.

Volta, amanhã, Thiago.

12h45 te esperamos pro almoço

Depois,

falamos com o defensor.

“E o gás, dona?”

Dinheiro não temos 

Vem pro almoço. 

Não esquece!

Me olha

mudo

Despedaçado

Baixa a cabeça e leva 

os pés sujos e maltratados

Vão para lugar

nenhum.

Podia ser meu irmão,

penso.

Meus olhos 

Choram.

Será que ele 

volta?

Água quente

Caía

Caía e molhava 

o corpo da mulher

Acariciava-lhe o couro cabeludo

Massageava-lhe levemente as costas cansadas

Descia pelo rosto e beijava-lhe a boca de lábios finos

A língua 

se punha para fora respondendo ao beijo

engolindo a água com vontade.

Lambia-lhe a nuca e o pescoço

buscando o colo macio

As pintas marrons já dilatadas

Deleitadas.

Escorreu até o bico rosado

parou ofegante
Gotejava.

O vapor subia até o teto

tomava as paredes

embaçava o espelho

Testemunhas oculares.

A água envolveu numa dança

circular

o abdome lunar.

Rodopiavam.

Entrou no umbigo e ali ficou

Represada

Como se tomasse fôlego.

Pele

Poros

Pelos 

Púbis

Tudo ardia.

No meio das pernas

fluídos e água se misturaram

Regozijaram-se

Moles

desceu preguiçosamente 

pelas coxas fartas

até os pés.

Num movimento de adeus, 

chupou-lhe ainda o dedão

causando arrepios.

Então

sumiu pelo ralo

Rarefeitas

Satisfeitas.

Pés putos

Seu corpo pesa sobre nós

Você pisa tão duro

Parece que quer esmagar todas as flores do caminho

Chutar pra longe todas as pedras

Olha, elas também fazem parte!

Só queremos ir mais devagar

Sair do piloto automático e sentir o chão todo

Do calcanhar à ponta dos dedos

Como e onde estamos pisando? 

Precisamos saber!

Passamos o dia inteiro presos nessas meias grossas

As tramas do tecido nos amordaçam

nossa função é o movimento

Mas estamos imobilizados no tênis esportivo

É uma contradição!

Queremos respirar

Ser postos para cima 

Nus

Completamente nus

Apenas sentindo os raios de sol

E o balançar da rede

Poder separar nossos dedos e movimentá-los 

À vontade

Pra lá e pra cá.

Tanto tempo faz que não nos leva a passeio

Queremos sentir novamente a grama fofa e úmida do amanhecer.

Correr na areia quente e fofa até o mar

Aahhh o mar!

Flutuar no balanço das ondas

E nem lembrar da rigidez do asfalto

Da dureza das ruas e dos dias.

Joga logo fora todos esses sapatos que nos machucam!

Nem você aguenta mais usar o que não te serve.

E as viagens que nos prometeu?

Heim?

Já esqueceu como foi a andança pela Patagônia?

Trilhas tão diversas

Tão longas

E lindas.

E o resto da América do Sul?

E o mochilão pela Europa?

Mas o pior não é o marasmo apertado dos nossos dias,

Sabe?

É a ingratidão 

Queremos que nos olhe

Nos respeite.

Reconheça que sobre nós não há queixas

Por que você só olha para aquilo que acha um problema?

Sinceramente, 

Pé direito e Pé esquerdo.

Bernardo

Bernardo andava rapidamente pela areia macia buscando alguma comida. Tinha predileção por restos de tamboril, seu peixe favorito, mas também gostava bastante de dejetos, achava-os adocicados. Certa vez, encontrou uma carcaça de Bicuda quase inteira. Parecia fresca: devia ter uns dois dias. Se aproximou e com a garra direita arrancou um belo pedaço. Saboreou aquele banquete por algumas horas, até o cansaço chegar. Andara bastante naquele dia, como em todos os outros, à procura de boas refeições. Era a gula o pecado mais presente nos seus dias e do qual jamais se redimiria: comia tudo o que encontrava pela frente. 

E adorava.

Além de glutão era também ladrão. Qualquer casa mais interessante e maior do que a sua, logo se tornava objeto de desejo e ele esperava a hora certa para invadir. Certa vez, encontrou uma bem sofisticada. Tinha uma cor interessante, as paredes texturizadas tinham um aspecto rajado de uma cor que lembrava nuances ora salmão, ora marfim. A  abertura frontal tinha o tamanho ideal para deixar seu corpo preso com a metade para fora, com as antenas e olhos bem posicionados do jeito que ele gostava. Além de tudo, era muito espaçosa. Olhou ao redor para ver se estava sozinho e enfiou as garras para se certificar de que não havia ninguém nos fundos. Sentiu um objeto liso e redondo. Curioso, segurou com cuidado e o tirou de lá de dentro, trazendo próximo aos olhos. Olhou fascinado para a pequena bola que reluzia e jogava luz aos corais um pouco à frente. Por um breve momento, apenas sentiu o balanço suave da maresia. Então se lembrou que precisava entrar logo, antes que alguém chegasse. Rapidamente, jogou a parte mais mole de seu corpo para dentro, aconchegando a pérola no fundo, junto de si

Resolveu subir até a beira da praia para aproveitar o calor do sol e a areia quente típicos do verão e que logo se despediria. Encontrou um monte fofo de areia perdido entre algumas pedras e se alojou ali, aproveitando a brisa. Estava relaxado sentindo o sol bater em suas pequenas presas e patas quando uma concha muito bonita lhe chamou a atenção.

Era a concha mais bonita que já tinha visto.

Welcome to the jungle

Num fim de tarde, uma andorinha voa sozinha no céu de fundo azul e nuvens brancas espaçadas, acima das copas das árvores de um pequeno bosque. Um pouco adiante, voam dois urubus sedentos pelos restos de algum cadáver. 

Qualquer um que seja: bicho ou gente. 

O bosque fica numa área central e movimentada da cidade. O verde intenso de suas árvores altas contrastam com os tons cinzas e descascados dos muros antigos e pichados de prédios e casas que o rodeiam. Em seu interior, algumas cutias e tucanos são livres pra transitar entre as gentes brancas que ali visitam. Outros animais não têm a mesma sorte e permanecem enjaulados em condições consideradas precárias por uns e excelentes por outros. 

Quem decide quem merece a liberdade? 

É mesmo livre a cutia que está fora da jaula?

Quando rodeamos o pequeno bosque pelo lado de fora, passamos em frente a um Centro POP que fica do outro lado da rua. Lá, se acolhe meninos de rua que atingiram a maioridade. Se acolhe mesmo? 

Já não são mais meninos. Ou são?

O que define a maioridade? 

Apesar de serem vizinhos do bosque e poderem observar as árvores e as cutias pelas grades verdes que circundam todo o lugar, os moradores de lá não são bem vindos em seu interior bem cuidado e parcialmente asfaltado. Caminhar entre as árvores ouvindo os pássaros e sentido cheiro de vida não está ao alcance deles, mesmo sendo um passeio gratuito. Na entrada, há sempre um vigilante com colete à prova de balas, um cassetete e uma arma de choque. 

É preciso vigiar a entrada do bosque. 

É preciso vigiar a cidade. 

Esse não é o único bosque daqui. E nem o único espaço verde muito bem vigiado perdido entre bairros nobres. 

Uma vez, li um levantamento feito por um órgão da cidade que dizia que o número de árvores nos bairros era proporcional à renda dos moradores: mais ar para quem tem mais dinheiro.

No Centro POP, há regras e horários que são cumpridos à risca para se garantir os direitos à alimentação, banho e descanso de todos que moram ali. Assim como no bosque, onde os animais recebem tratamento previamente agendado de acordo com a escala de trabalho do funcionário do dia.

É preciso cuidar. 

Conforme escurece, não se vê mais nem a andorinha, nem os urubus no céu. 

São 8 da noite e o bosque já está fechado. Também já deu o horário do toque de recolher na cidade por causa do aumento de números de casos da Covid. 

Foram os urubus pras filas dos hospitais?

De dentro do bosque, os animais contemplam a noite escura e fria sem se dar conta do que acontece aqui fora.

No Centro POP, os moradores só podem tirar a máscara par comer, tomar banho e dormir. Há uma agenda pra prevenir a contaminação entre eles. 

As gentes brancas já estão em suas casas, tomando seus banhos quentes depois de sua corrida diária, sem máscara. A máscara incomoda na hora da corrida, deixa sem ar. Então, logo que elas entram no bosque, mesmo sendo proibido, arrancam logo a máscara pro treino de corrida render melhor. É preciso cuidar da saúde, afinal.

 A vida das gentes brancas não tem agenda. Podem fazer o que quiserem, quando quiserem.  Só não podem sair depois das 8 da noite. 

Nesse horário, os animais estão todos na jaula. 

Quem é realmente livre?

Um brinde.

Quando eu tinha 20 anos, vivi uma história de amor.

Nos conhecemos numa exposição de arte duvidosa que acontecia no salão de festas do clube da cidade. Passamos a tarde conversando e quando eu precisava ir, ele decidiu me acompanhar.

Durante o trajeto, paramos várias vezes pra nos beijar. Já perto de casa, desvencilhei minha língua da dele com medo de alguém nos ver. 

Nossos corpos entrelaçados se apoiavam no muro da escola em que estudei no ensino fundamental. Eu me agarrei a ele trazendo seu corpo para ainda mais perto do meu:

“Preciso ir”

Ele me olhou profundo e triste, passou a mão pelo meu rosto:

“Você é tão linda! Queria te colocar dentro de uma garrafinha, te levar pra casa e ficar te olhando” 

Me beijou mais. 

Eu precisava terminar o trajeto até em casa, mas não queria. Desci a rua, atravessei a ponte. Olhei pra trás para ver se ele ainda estava lá.

Estava.

Me olhando, me desejando, mal esperando o dia de me encontrar de novo. 

Subi a rua, virei a esquina e abri o portão, mas queria voltar para esquina da escola. 

Queria outro beijo. Outros.

Mal podia esperar para vê-lo de novo. 

Eu assitia a uma aula da qual não me lembro e recebi uma mensagem dele dizendo que estava no teatro que tinha em frente à faculdade e havia trazido um presente pra mim. Desci as escadas correndo, quase caindo, e atravessei a rua. Ele me esperava na portaria.

Ali estava ele: presente para mim.

Pegou dois ônibus para me levar um bombom sonho de valsa. 

“Achei que o bombom era um bom pretexto pra te ver”

Olhei para ele com carinho.

Admirei aquele momento e guardei-o dentro do peito confuso com tantas coisas que aconteciam em casa.

Guardei o bombom pra abrir num momento especial. Ou não abrir nunca. 

Era um troféu.

Melhor: era um tesouro. 

Naquele dia, matei aula para assistirmos a uma peça.

O pai dele tinha um dos meus nomes. Eu achava aquilo engraçado. Sua mãe era tristeza e saudade que a morte levara muitos anos antes do nosso encontro.

Certo dia, ele me contou uma história de quando a ex-noiva terminou com ele e deixou para ele pagar o carnê com as prestações do fogão que tinham comprado juntos.

Eles almoçavam na mãe dela e depois de terminar com ele “comeu dois pratos bem cheios e disse à mãe que fazia tempo que não almoçava tão bem. Eu senti como se ela estivesse aliviada de terminar comigo, sabe?”,  relatou com olhos tristes.  

Por mais que eu quisesse passar mais tempo com ele, as coisas eram difíceis para mim. 

Em casa, era difícil.

Minha ausência começou a lhe incomodar.

Eu queria passar mais tempo com ele. O tempo todo, para ser sincera. Resolvi surpreender.

Numa sexta-feira, peguei folga do trabalho, tomei dois ônibus e fui à  casa dele.

Bati palmas no portão, chamei. Tinha comigo batatas, massa para macarrão e molho de tomate.

Os cachorros latiram. Ele veio abrir o portão muito surpreso, mas não pareceu feliz. 

“O que veio fazer aqui?”

“Vim ficar com você!” 

Abriu o portão, me chamou pra entrar meio desconcertado. Coloquei as coisas no balcão que dividia a cozinha da sala/quarto. 

O quarto/quarto ele tinha transformado num lugar de pintar, desenhar, riscar. 

Dentro de seu corpo miúdo, carregava todas as dores do mundo. 

As dores da perda da mãe.

As dores da pobreza. 

As dores de compreender os abismos sociais que existem em nosso país.

Desde criança, desenhava suas dores.

Nunca desenhou a dor da minha ausência. Talvez não fosse uma dor digna de seus traços densos e marcados. Talvez a minha ausência fosse dor para mim e para ele apenas incômodo.  

Talvez o fogão doesse mais, porque doía no bolso.

Não. Não posso ser injusta. Ele não era assim. Era bem menos apegado ao dinheiro do que meu pai gostaria que ele fosse. 

Eu gostaria que meu pai fosse um pouco apegado à arte e menos ao dinheiro. 

Talvez, se o namoro tivesse durado mais tempo, eles pudessem ensinar um ao outro sobre suas paixões. 

Mas não durou.

Sentei na cama que ocupava metade da sala. Não porque a cama fosse grande, era uma cama de solteiro comum. A sala que era pequena, como os outros três cômodos da casa.

Eu estava feliz por estar ali.

Olhei-o e admirei seu rosto. Os olhos verdes e grandes, muito bonitos, porém não tão bonitos quanto os meus, eram emoldurados por sobrancelhas espessas. O nariz e a boca eram bem marcados numa feição masculina de poros grossos. Eu adorava a pele áspera de seu rosto. Gostava de passar a mão por suas bochechas e queixo. Tinha os cabelos longos, lisos e castanhos. Esses eram definitivamente muito mais bonitos do que os meus, embora os meus fossem bem bonitos. 

Ele me olhou não com a delicadeza de sempre, mas com uma expressão que eu não consegui decifrar. Raiva? Angústia? Decepção?

De súbito, vomitou logo:

“Ontem à noite, ela veio aqui. Disse que quer voltar”

Demorei um momento para processar essa informação.

A expressão indecifrável de minutos antes se fez clara e eu me desfiz: separação.

Sentada no sofá, ao lado de um vaso com uma planta morta, seguro um bombom sonho de valsa lembrando com carinho de detalhes que só dizem respeito a mim e a ele. 

Desembrulho o bombom e o trago junto ao nariz. Me lembro vagamente da sensação de ser desejada e desejar.  

Fico feliz por sentir o cheiro das coisas e me pergunto se um dia a Pandemia vai acabar no Brasil. Desejaremos e seremos desejados novamente? Os desejos se transformarão em encontros amorosos?

Levo o bombom à boca e o contato dos meus lábios com o chocolate me remonta aos beijos apaixonados daquele amor de juventude, vivido há mais de uma década e meia. 

Engulo com satisfação desejando sentir novamente.

Se a pandemia não acabar, pelo menos me restam as memórias.

Antes de outra mordida, levanto o bombom no ar como se brindasse: 

A você, T.

Duro como pedra

As batatas assadas ficaram duras e quase quebraram de novo o dente que arranquei semana passada. Não arranquei o dente comendo batatas, claro. Flavinho decidiu descontar sua raiva em mim e deu um belo soco bem no meio da minha cara, enquanto seus dois servos me seguravam na hora do intervalo. 

Sempre fui um alvo fácil. Péricles, o professor de educação física, usou seus bíceps definidos e sempre à mostra em camiseta regata qualquer para apartar a briga, segundo ele. Isso mesmo: ele usou a palavra “apartar” quando relatou a confusão para d. Dolores.

 Fiquei pensando que pra uma briga ser apartada duas pessoas têm que estar batendo, mas eu nem me atrevi a argumentar. Também fiquei me perguntando se como professor ele não deveria usar pelo menos camisetas com mangas. Algumas meninas mais assanhadas nem se faziam de rogadas e chegavam até a fazer gracinhas para o professor. 

 Enquanto eu estancava o sangue que jorrava da minha boca com a manga do moletom, Dolores bradava sua corriqueira lição de moral enquanto ajeitava a gola rolê “No Colégio Atlantísia os valores estão em primeiro lugar, meninos. Vocês têm que ser homens e resolver as coisas de forma civilizada. Dois dias em casa para pensar”. De onde ela tirou que isso era um castigo eficiente? Até parece que eu passaria dois dias pensando no murrão que levei do Flavinho. Até parece que o Flavinho era capaz de pensar…

Quando esse tipo de coisa acontecia, minha mãe chorava pelos cantos grunhindo “Onde foi que eu errei? O que eu fiz para merecer isso?”, e se esvaía em lágrimas toda vez que passava por mim e tinha que encarar o filho fracassado de 15 anos. Meu pai inconformado que eu não tinha sido homem suficiente para “partir a cara do moleque ao meio” determinou que eu me virasse com o dentista e já avisou que eu ficaria dois meses sem receber nada do suado dinheiro que ele ganhava em sua própria empresa de forma honesta.  Eu sempre ficava sem mesada.

Gastei R$ 200,00 das minhas suadas economias para consertar o maldito dente. Se não fosse o dente da frente, teria deixado quebrado, mas o buraco comporia uma cena ainda mais ridícula junto com as lentes grossas dos meus óculos e meu rosto redondo e cheio de espinhas.

Hoje o Lucca veio aqui em casa e me pediu dois adesivos. Não queria dar, mas ele é meu único amigo. No colégio, somos os mais feios da sala. Arrisco a dizer que estamos entre os piores do colégio, perdendo só para o Tadeu, que além de ter uma cara feia, é alto demais e muito magro. As roupas ficam sempre muito curtas e muito largas, sem contar os sapatos que são enormes. Dizem que ele ainda vai crescer mais. Coitado!

Lucca e eu temos cara de nerd, mas tiramos notas horríveis e sempre estamos de recuperação  em alguma matéria, até trabalho extra de educação física já precisamos fazer porque ninguém nunca nos escolhe para fazer parte de time nenhum. Não ligo: prefiro desenhar meus adesivos.

Lucca é mais magro que eu, mas nem assim é bonito. Aliás, não chega nem perto disso. Ele é um tipo miúdo que usa roupas sem graça e tem um narigão enorme. Moramos na mesma rua e nos conhecemos desde o jardim de infância. Ele também não é o orgulho dos pais e também leva a culpa por tudo. Geralmente levamos a culpa por tudo juntos.

No dia em que choveu granizo lá fora e quebrou uma das janelas da d. Nezia, a vizinha que mora na casa ao lado, ela insistiu que nós tínhamos jogado pedra na janela dela. Assim que a chuva passou, veio com sua cara mal humorada até a porta, usou a ponta da bengala para apertar a campainha e quando minha mãe atendeu, já foi logo soltando “Esse seu filho e o filho da Márcia são dois delinquentes! Aproveitaram a chuva para quebrar minha janela” e abriu a mão mostrando uma pedra que ela devia ter catado no próprio jardim. Eu e Lucca estávamos no quarto jogando Free Fire quando meu pai abriu a porta e já foi logo enxotando ele para fora. Gritou que eu era um inconsequente, que não tinha jeito, levantou a mão pesada no ar e eu já me preparava para uma bofetada na cara quando ele desistiu no meio do caminho. 

Em vez da bofetada, abaixou o braço, revirou os olhos, esfregou a mão na testa, ajeitou o nó da gravata e me olhou com o mesmo desprezo de sempre, murmurou que eu não valia o estresse que fazia ele passar todo o dia, determinou que pelo resto do mês eu só sairia para ir à escola, saiu pisando duro e bateu a porta do meu quarto atrás de si.

Ainda era dia 4 e eu passei o resto do mês trancado no quarto. Passava horas deitado na cama, olhando para o teto enquanto pensava coisas aleatórias. “Cadê o Elvis? Ele ainda está vivo? Quantos anos ele teria se ainda estivesse vivo? O Elvis eu não sei, mas o Michael Jackson tenho certeza de que ainda está vivo. Elvis não é o nome do papagaio da d. Elisa? Nome estranho para um papagaio…”

Num dos intermináveis finais de tarde daquele castigo, eu olhava as estrelas pintadas no teto do meu quarto e lembrava de quando era criança e ainda não tinha me tornado um fracasso total. 

Eu devia ter uns quatro anos e minha mãe não trabalhava fora.  Me lembro de brincar no meu quarto com meus carrinhos e aviões dentro da barraquinha de pirata que ficava perto da minha cama e minha mãe entrar e sentar no chão junto comigo. Eu fazia o avião voar perto de seu nariz e ela me abraçava e beijava orgulhosa. Depois, cheirava meu cabelo e ficava ali me fazendo companhia. Então meu pai chegava, me pegava no colo fingindo que o avião era eu e eu quase alcançava as estrelas. Era o único jeito de meu avião realmente alcançar o céu.

Olhando pela janela, percebo que anoiteceu e faz uma noite especialmente escura. No céu negro encoberto por nuvens carregadas, apenas uma estrela escapou da escuridão e brilha. Fico pensando se ela se sente tão sozinha quanto eu. Me lembro de um livro que lemos para a aula de português em que o personagem acordava e tinha se tornado uma barata. Eu me sinto como ele: sozinho e nojento.

Hoje o dia foi insano. Vou tomar um banho e ler o livro da aula de ciências para o seminário “Os répteis e seu habitat natural”, podia até ser minha biografia, pensando bem. Pego um dos resumos que ficaram péssimos, amasso e arremesso no lixo que fica ao lado da escrivaninha. 

Erro.

Que novidade heim, Pedro? Digo a mim mesmo em voz alta com decepção. 

Errar é corriqueiro para mim.

Entro no chuveiro e enquanto esfrego as dobras da minha barriga, o barulho se mistura à chuva torrencial que cai lá fora. 

Me lembro de quando eu era pequeno e podia brincar no quintal quando chovia. Eu olhava para o céu de boca aberta e tentava beber aquela água. Minha mãe olhava da janela da cozinha e sorria. Eu gritava alegre “Olha a chuva, mamãe! Olha!” Depois de um tempo eu começava a sentir frio e voltava para dentro pulando as poças. Minha mãe me esperava na porta da cozinha com uma toalha e me levava direto para um banho quentinho. Eu adorava o calor do banheiro e o vapor que ficava lá dentro. Depois do banho, sempre desenhávamos com os dedos no espelho do banheiro.

Um trovão rompe os céus e o barulho me assusta.

Não sei mais se o que molha meu rosto é água do chuveiro ou o choro.

Será que a estrela solitária ainda brilha lá fora?