Quando me olha

Me olha profundo

Tem a idade da minha irmã,

penso

“Liga no fórum pra mim, dona?”

Me olha

Lembro de minha mãe 

querer outro filho além de nós três 

Pede dinheiro pro gás

Outra cesta

Tem fome.

São olhos castanhos

bonitos como os lá de casa,

penso.

Está solto, 

porém as mãos 

Atadas

Mora em lugar algum

Dinheiro para a pena

Não tem 

Quando fala do delito

olha pra baixo

Alô, é do fórum?

pergunta a agente escolar

Ele tem que procurar um defensor público, 

então?

“Nem sei onde fica isso, dona?”

Olha de canto, 

já irritado.

Volta, amanhã, Thiago.

12h45 te esperamos pro almoço

Depois,

falamos com o defensor.

“E o gás, dona?”

Dinheiro não temos 

Vem pro almoço. 

Não esquece!

Me olha

mudo

Despedaçado

Baixa a cabeça e leva 

os pés sujos e maltratados

Vão para lugar

nenhum.

Podia ser meu irmão,

penso.

Meus olhos 

Choram.

Será que ele 

volta?

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