Welcome to the jungle

Num fim de tarde, uma andorinha voa sozinha no céu de fundo azul e nuvens brancas espaçadas, acima das copas das árvores de um pequeno bosque. Um pouco adiante, voam dois urubus sedentos pelos restos de algum cadáver. 

Qualquer um que seja: bicho ou gente. 

O bosque fica numa área central e movimentada da cidade. O verde intenso de suas árvores altas contrastam com os tons cinzas e descascados dos muros antigos e pichados de prédios e casas que o rodeiam. Em seu interior, algumas cutias e tucanos são livres pra transitar entre as gentes brancas que ali visitam. Outros animais não têm a mesma sorte e permanecem enjaulados em condições consideradas precárias por uns e excelentes por outros. 

Quem decide quem merece a liberdade? 

É mesmo livre a cutia que está fora da jaula?

Quando rodeamos o pequeno bosque pelo lado de fora, passamos em frente a um Centro POP que fica do outro lado da rua. Lá, se acolhe meninos de rua que atingiram a maioridade. Se acolhe mesmo? 

Já não são mais meninos. Ou são?

O que define a maioridade? 

Apesar de serem vizinhos do bosque e poderem observar as árvores e as cutias pelas grades verdes que circundam todo o lugar, os moradores de lá não são bem vindos em seu interior bem cuidado e parcialmente asfaltado. Caminhar entre as árvores ouvindo os pássaros e sentido cheiro de vida não está ao alcance deles, mesmo sendo um passeio gratuito. Na entrada, há sempre um vigilante com colete à prova de balas, um cassetete e uma arma de choque. 

É preciso vigiar a entrada do bosque. 

É preciso vigiar a cidade. 

Esse não é o único bosque daqui. E nem o único espaço verde muito bem vigiado perdido entre bairros nobres. 

Uma vez, li um levantamento feito por um órgão da cidade que dizia que o número de árvores nos bairros era proporcional à renda dos moradores: mais ar para quem tem mais dinheiro.

No Centro POP, há regras e horários que são cumpridos à risca para se garantir os direitos à alimentação, banho e descanso de todos que moram ali. Assim como no bosque, onde os animais recebem tratamento previamente agendado de acordo com a escala de trabalho do funcionário do dia.

É preciso cuidar. 

Conforme escurece, não se vê mais nem a andorinha, nem os urubus no céu. 

São 8 da noite e o bosque já está fechado. Também já deu o horário do toque de recolher na cidade por causa do aumento de números de casos da Covid. 

Foram os urubus pras filas dos hospitais?

De dentro do bosque, os animais contemplam a noite escura e fria sem se dar conta do que acontece aqui fora.

No Centro POP, os moradores só podem tirar a máscara par comer, tomar banho e dormir. Há uma agenda pra prevenir a contaminação entre eles. 

As gentes brancas já estão em suas casas, tomando seus banhos quentes depois de sua corrida diária, sem máscara. A máscara incomoda na hora da corrida, deixa sem ar. Então, logo que elas entram no bosque, mesmo sendo proibido, arrancam logo a máscara pro treino de corrida render melhor. É preciso cuidar da saúde, afinal.

 A vida das gentes brancas não tem agenda. Podem fazer o que quiserem, quando quiserem.  Só não podem sair depois das 8 da noite. 

Nesse horário, os animais estão todos na jaula. 

Quem é realmente livre?

2 comentários em “Welcome to the jungle

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