Um brinde.

Quando eu tinha 20 anos, vivi uma história de amor.

Nos conhecemos numa exposição de arte duvidosa que acontecia no salão de festas do clube da cidade. Passamos a tarde conversando e quando eu precisava ir, ele decidiu me acompanhar.

Durante o trajeto, paramos várias vezes pra nos beijar. Já perto de casa, desvencilhei minha língua da dele com medo de alguém nos ver. 

Nossos corpos entrelaçados se apoiavam no muro da escola em que estudei no ensino fundamental. Eu me agarrei a ele trazendo seu corpo para ainda mais perto do meu:

“Preciso ir”

Ele me olhou profundo e triste, passou a mão pelo meu rosto:

“Você é tão linda! Queria te colocar dentro de uma garrafinha, te levar pra casa e ficar te olhando” 

Me beijou mais. 

Eu precisava terminar o trajeto até em casa, mas não queria. Desci a rua, atravessei a ponte. Olhei pra trás para ver se ele ainda estava lá.

Estava.

Me olhando, me desejando, mal esperando o dia de me encontrar de novo. 

Subi a rua, virei a esquina e abri o portão, mas queria voltar para esquina da escola. 

Queria outro beijo. Outros.

Mal podia esperar para vê-lo de novo. 

Eu assitia a uma aula da qual não me lembro e recebi uma mensagem dele dizendo que estava no teatro que tinha em frente à faculdade e havia trazido um presente pra mim. Desci as escadas correndo, quase caindo, e atravessei a rua. Ele me esperava na portaria.

Ali estava ele: presente para mim.

Pegou dois ônibus para me levar um bombom sonho de valsa. 

“Achei que o bombom era um bom pretexto pra te ver”

Olhei para ele com carinho.

Admirei aquele momento e guardei-o dentro do peito confuso com tantas coisas que aconteciam em casa.

Guardei o bombom pra abrir num momento especial. Ou não abrir nunca. 

Era um troféu.

Melhor: era um tesouro. 

Naquele dia, matei aula para assistirmos a uma peça.

O pai dele tinha um dos meus nomes. Eu achava aquilo engraçado. Sua mãe era tristeza e saudade que a morte levara muitos anos antes do nosso encontro.

Certo dia, ele me contou uma história de quando a ex-noiva terminou com ele e deixou para ele pagar o carnê com as prestações do fogão que tinham comprado juntos.

Eles almoçavam na mãe dela e depois de terminar com ele “comeu dois pratos bem cheios e disse à mãe que fazia tempo que não almoçava tão bem. Eu senti como se ela estivesse aliviada de terminar comigo, sabe?”,  relatou com olhos tristes.  

Por mais que eu quisesse passar mais tempo com ele, as coisas eram difíceis para mim. 

Em casa, era difícil.

Minha ausência começou a lhe incomodar.

Eu queria passar mais tempo com ele. O tempo todo, para ser sincera. Resolvi surpreender.

Numa sexta-feira, peguei folga do trabalho, tomei dois ônibus e fui à  casa dele.

Bati palmas no portão, chamei. Tinha comigo batatas, massa para macarrão e molho de tomate.

Os cachorros latiram. Ele veio abrir o portão muito surpreso, mas não pareceu feliz. 

“O que veio fazer aqui?”

“Vim ficar com você!” 

Abriu o portão, me chamou pra entrar meio desconcertado. Coloquei as coisas no balcão que dividia a cozinha da sala/quarto. 

O quarto/quarto ele tinha transformado num lugar de pintar, desenhar, riscar. 

Dentro de seu corpo miúdo, carregava todas as dores do mundo. 

As dores da perda da mãe.

As dores da pobreza. 

As dores de compreender os abismos sociais que existem em nosso país.

Desde criança, desenhava suas dores.

Nunca desenhou a dor da minha ausência. Talvez não fosse uma dor digna de seus traços densos e marcados. Talvez a minha ausência fosse dor para mim e para ele apenas incômodo.  

Talvez o fogão doesse mais, porque doía no bolso.

Não. Não posso ser injusta. Ele não era assim. Era bem menos apegado ao dinheiro do que meu pai gostaria que ele fosse. 

Eu gostaria que meu pai fosse um pouco apegado à arte e menos ao dinheiro. 

Talvez, se o namoro tivesse durado mais tempo, eles pudessem ensinar um ao outro sobre suas paixões. 

Mas não durou.

Sentei na cama que ocupava metade da sala. Não porque a cama fosse grande, era uma cama de solteiro comum. A sala que era pequena, como os outros três cômodos da casa.

Eu estava feliz por estar ali.

Olhei-o e admirei seu rosto. Os olhos verdes e grandes, muito bonitos, porém não tão bonitos quanto os meus, eram emoldurados por sobrancelhas espessas. O nariz e a boca eram bem marcados numa feição masculina de poros grossos. Eu adorava a pele áspera de seu rosto. Gostava de passar a mão por suas bochechas e queixo. Tinha os cabelos longos, lisos e castanhos. Esses eram definitivamente muito mais bonitos do que os meus, embora os meus fossem bem bonitos. 

Ele me olhou não com a delicadeza de sempre, mas com uma expressão que eu não consegui decifrar. Raiva? Angústia? Decepção?

De súbito, vomitou logo:

“Ontem à noite, ela veio aqui. Disse que quer voltar”

Demorei um momento para processar essa informação.

A expressão indecifrável de minutos antes se fez clara e eu me desfiz: separação.

Sentada no sofá, ao lado de um vaso com uma planta morta, seguro um bombom sonho de valsa lembrando com carinho de detalhes que só dizem respeito a mim e a ele. 

Desembrulho o bombom e o trago junto ao nariz. Me lembro vagamente da sensação de ser desejada e desejar.  

Fico feliz por sentir o cheiro das coisas e me pergunto se um dia a Pandemia vai acabar no Brasil. Desejaremos e seremos desejados novamente? Os desejos se transformarão em encontros amorosos?

Levo o bombom à boca e o contato dos meus lábios com o chocolate me remonta aos beijos apaixonados daquele amor de juventude, vivido há mais de uma década e meia. 

Engulo com satisfação desejando sentir novamente.

Se a pandemia não acabar, pelo menos me restam as memórias.

Antes de outra mordida, levanto o bombom no ar como se brindasse: 

A você, T.

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