Duro como pedra

As batatas assadas ficaram duras e quase quebraram de novo o dente que arranquei semana passada. Não arranquei o dente comendo batatas, claro. Flavinho decidiu descontar sua raiva em mim e deu um belo soco bem no meio da minha cara, enquanto seus dois servos me seguravam na hora do intervalo. 

Sempre fui um alvo fácil. Péricles, o professor de educação física, usou seus bíceps definidos e sempre à mostra em camiseta regata qualquer para apartar a briga, segundo ele. Isso mesmo: ele usou a palavra “apartar” quando relatou a confusão para d. Dolores.

 Fiquei pensando que pra uma briga ser apartada duas pessoas têm que estar batendo, mas eu nem me atrevi a argumentar. Também fiquei me perguntando se como professor ele não deveria usar pelo menos camisetas com mangas. Algumas meninas mais assanhadas nem se faziam de rogadas e chegavam até a fazer gracinhas para o professor. 

 Enquanto eu estancava o sangue que jorrava da minha boca com a manga do moletom, Dolores bradava sua corriqueira lição de moral enquanto ajeitava a gola rolê “No Colégio Atlantísia os valores estão em primeiro lugar, meninos. Vocês têm que ser homens e resolver as coisas de forma civilizada. Dois dias em casa para pensar”. De onde ela tirou que isso era um castigo eficiente? Até parece que eu passaria dois dias pensando no murrão que levei do Flavinho. Até parece que o Flavinho era capaz de pensar…

Quando esse tipo de coisa acontecia, minha mãe chorava pelos cantos grunhindo “Onde foi que eu errei? O que eu fiz para merecer isso?”, e se esvaía em lágrimas toda vez que passava por mim e tinha que encarar o filho fracassado de 15 anos. Meu pai inconformado que eu não tinha sido homem suficiente para “partir a cara do moleque ao meio” determinou que eu me virasse com o dentista e já avisou que eu ficaria dois meses sem receber nada do suado dinheiro que ele ganhava em sua própria empresa de forma honesta.  Eu sempre ficava sem mesada.

Gastei R$ 200,00 das minhas suadas economias para consertar o maldito dente. Se não fosse o dente da frente, teria deixado quebrado, mas o buraco comporia uma cena ainda mais ridícula junto com as lentes grossas dos meus óculos e meu rosto redondo e cheio de espinhas.

Hoje o Lucca veio aqui em casa e me pediu dois adesivos. Não queria dar, mas ele é meu único amigo. No colégio, somos os mais feios da sala. Arrisco a dizer que estamos entre os piores do colégio, perdendo só para o Tadeu, que além de ter uma cara feia, é alto demais e muito magro. As roupas ficam sempre muito curtas e muito largas, sem contar os sapatos que são enormes. Dizem que ele ainda vai crescer mais. Coitado!

Lucca e eu temos cara de nerd, mas tiramos notas horríveis e sempre estamos de recuperação  em alguma matéria, até trabalho extra de educação física já precisamos fazer porque ninguém nunca nos escolhe para fazer parte de time nenhum. Não ligo: prefiro desenhar meus adesivos.

Lucca é mais magro que eu, mas nem assim é bonito. Aliás, não chega nem perto disso. Ele é um tipo miúdo que usa roupas sem graça e tem um narigão enorme. Moramos na mesma rua e nos conhecemos desde o jardim de infância. Ele também não é o orgulho dos pais e também leva a culpa por tudo. Geralmente levamos a culpa por tudo juntos.

No dia em que choveu granizo lá fora e quebrou uma das janelas da d. Nezia, a vizinha que mora na casa ao lado, ela insistiu que nós tínhamos jogado pedra na janela dela. Assim que a chuva passou, veio com sua cara mal humorada até a porta, usou a ponta da bengala para apertar a campainha e quando minha mãe atendeu, já foi logo soltando “Esse seu filho e o filho da Márcia são dois delinquentes! Aproveitaram a chuva para quebrar minha janela” e abriu a mão mostrando uma pedra que ela devia ter catado no próprio jardim. Eu e Lucca estávamos no quarto jogando Free Fire quando meu pai abriu a porta e já foi logo enxotando ele para fora. Gritou que eu era um inconsequente, que não tinha jeito, levantou a mão pesada no ar e eu já me preparava para uma bofetada na cara quando ele desistiu no meio do caminho. 

Em vez da bofetada, abaixou o braço, revirou os olhos, esfregou a mão na testa, ajeitou o nó da gravata e me olhou com o mesmo desprezo de sempre, murmurou que eu não valia o estresse que fazia ele passar todo o dia, determinou que pelo resto do mês eu só sairia para ir à escola, saiu pisando duro e bateu a porta do meu quarto atrás de si.

Ainda era dia 4 e eu passei o resto do mês trancado no quarto. Passava horas deitado na cama, olhando para o teto enquanto pensava coisas aleatórias. “Cadê o Elvis? Ele ainda está vivo? Quantos anos ele teria se ainda estivesse vivo? O Elvis eu não sei, mas o Michael Jackson tenho certeza de que ainda está vivo. Elvis não é o nome do papagaio da d. Elisa? Nome estranho para um papagaio…”

Num dos intermináveis finais de tarde daquele castigo, eu olhava as estrelas pintadas no teto do meu quarto e lembrava de quando era criança e ainda não tinha me tornado um fracasso total. 

Eu devia ter uns quatro anos e minha mãe não trabalhava fora.  Me lembro de brincar no meu quarto com meus carrinhos e aviões dentro da barraquinha de pirata que ficava perto da minha cama e minha mãe entrar e sentar no chão junto comigo. Eu fazia o avião voar perto de seu nariz e ela me abraçava e beijava orgulhosa. Depois, cheirava meu cabelo e ficava ali me fazendo companhia. Então meu pai chegava, me pegava no colo fingindo que o avião era eu e eu quase alcançava as estrelas. Era o único jeito de meu avião realmente alcançar o céu.

Olhando pela janela, percebo que anoiteceu e faz uma noite especialmente escura. No céu negro encoberto por nuvens carregadas, apenas uma estrela escapou da escuridão e brilha. Fico pensando se ela se sente tão sozinha quanto eu. Me lembro de um livro que lemos para a aula de português em que o personagem acordava e tinha se tornado uma barata. Eu me sinto como ele: sozinho e nojento.

Hoje o dia foi insano. Vou tomar um banho e ler o livro da aula de ciências para o seminário “Os répteis e seu habitat natural”, podia até ser minha biografia, pensando bem. Pego um dos resumos que ficaram péssimos, amasso e arremesso no lixo que fica ao lado da escrivaninha. 

Erro.

Que novidade heim, Pedro? Digo a mim mesmo em voz alta com decepção. 

Errar é corriqueiro para mim.

Entro no chuveiro e enquanto esfrego as dobras da minha barriga, o barulho se mistura à chuva torrencial que cai lá fora. 

Me lembro de quando eu era pequeno e podia brincar no quintal quando chovia. Eu olhava para o céu de boca aberta e tentava beber aquela água. Minha mãe olhava da janela da cozinha e sorria. Eu gritava alegre “Olha a chuva, mamãe! Olha!” Depois de um tempo eu começava a sentir frio e voltava para dentro pulando as poças. Minha mãe me esperava na porta da cozinha com uma toalha e me levava direto para um banho quentinho. Eu adorava o calor do banheiro e o vapor que ficava lá dentro. Depois do banho, sempre desenhávamos com os dedos no espelho do banheiro.

Um trovão rompe os céus e o barulho me assusta.

Não sei mais se o que molha meu rosto é água do chuveiro ou o choro.

Será que a estrela solitária ainda brilha lá fora?

Um comentário em “Duro como pedra

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