Acaba?

Mari, essa semana me aconteceu algo tão inusitado. 

Uma história tão maluca! 

Um cara me mandou uma mensagem no Instagram dizendo que tinha achado no meio de documentos antigos uma carta minha de 20 anos atrás. Claro que ignorei solenemente pensando ser algum tipo de trote. Mas acredita que ele mandou foto da carta?

Minha mesmo, Mari. Uma Ana Amélia de 14 anos purinha! 

Cada frase piegas. Você ia amar!! 

Como eu queria que você estivesse aqui para te contar essa história.

Mostrei pra algumas pessoas próximas, demos muita risada, mas não é como rir com você.

Fico imaginando a gente na sala com a TV ligada num programa qualquer.  Você estaria com o controle da TV na mão, sentada na sua antiga cama, que usávamos como sofá. O celular sempre por perto, do seu lado, em cima da colcha quadriculada com enormes quadrados  verdes e amarelos que cobria o colchão de molas já um pouco estufadas. Esse era seu lugar na sala: bem em frente à TV e algumas de nossas plantas. 

Já eu gostava era do sofá marrom, parecido com um divã. Aquele sofá era definitivamente meu lugar favorito do apartamento na rua Conceição. Estaríamos sentadas lado a lado, como sempre. Eu veria uma foto de Freud e diria que ele devia ser muito fofinho, e você riria da minha cara dizendo alto “Ana Amélia, Ana Amélia” com um tom reprovador e zombeteiro.

De repente, olhando o Instagram, eu me depararia com a mensagem do moço e com as fotos da misteriosa carta datada de maio de 2000.

“Neiva do céu, olha essa história!” – eu indagaria te chamando pelo codinome que usávamos para nos referir uma à outra na intimidade dos nossos dias. Eu leria a carta em voz alta e riríamos alto de cada frase piegas. 

Riríamos e riríamos, lacrimejando. As bochechas doendo e a gente rindo mais ainda por elas doerem.

Gargalharíamos tão alto que junto com nossos corpos chacoalharíamos todas as paredes do apartamento 52.

Depois, começaríamos a dividir memórias de nossas adolescências vividas no início dos anos 2000. Você em São José, com sua família negra e progressista e eu em Franca, com minha família branca e conservadora. 

Por alguns minutos, mas não muitos, ignoraríamos todas as barbáries cometidas pelo governo federal em meio a uma Pandemia que já ceifou a vida de mais de 260.000 brasileiros.

Depois, veríamos alguma barbaridade do governo e nos indignaríamos. Lembraríamos de nossos 15 anos não mais com alegria, mas com pesar pela menina de 13 anos que morreu em decorrência de uma síndrome pós-covid e talvez nunca tenha tido a chance de escrever uma carta piegas.

Aparentemente, quem não desenvolve sintomas, também pode morrer.

E quem não pega Covid também, né, Mari?

A vida pulsava tanto em você e você estava tão feliz, mas tão feliz de ver sua família reunida depois de 8 meses distantes por causa do isolamento, que naquele dia a vida foi tanta que arrebentou os limites das veias e encharcou seu coração todinho. A vida não coube mais nesse plano. 

Naquela semana, durante nossa última conversa, falamos sobre você voltar pra casa. Você estava esperando os índices em Campinas melhorarem pra voltar pra cá. Nem fazíamos ideia de como ainda não havíamos chegado no pior da Pandemia. Agora tem até variante, Neiva! Mais transmissível e mais mortal. 

Sabe o que é pior, Mari? Eu nem sei se esse é o pior dela. Ainda acho que as coisas vão piorar. 

Não consigo ser otimista nesse cenário. 

Ainda estou de luto, Mari. 

Onde eu moro agora tem uma sacada com vista pro Bosque dos Jequitibás. Eu deito na rede de quadrados grandes e amarelos que instalei na sacada e fico olhando a copa das árvores enquanto ouço os pássaros.  É tranquilo e solitário aqui. 

Sempre que olho para o céu, penso em você. Acho que é aquela ideia infantil de que agora você está lá. Mas lá onde?

Onde é o céu, Neiva?

As gotas de chuva que molham o vidro da sacada são parecidas com as lágrimas que molham esse meu pensamento. Minha garganta se fecha e minha língua se contrai na raiva que escolho esconder.

Eu a escondo, mas ela está aqui. Vou ficar chorando até quando, sr. Presidente?

Ainda estou de luto, minha amiga.

Eu não sei quando a pandemia acaba, nem se um dia ela acaba.

O que eu sei é que você não volta mais pra casa. 

Eu sei que 260.000 não voltam. 

Será que o luto um dia acaba?

2 comentários em “Acaba?

  1. Ana , lindo seu texto. Ela merece. Está melhor que nós com a incerteza desta pandemia.Ela deve estar preocupada conosco..Pedindo a todo momento que lavassemos os alimentos, tomar banho quando chegamos da rua, tirando os sapatos na porta de entrada,e usando o álcool gel.Forte abraci

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