Clarice desnecessária

Dedico este texto a Clarice, Rosilene e Vinícius, sempre muito necessários

 “Outra verdade: Laura é bastante burra. Tem gente que acha ela burríssima, mas isto também é exagero: quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos (LISPECTOR, C. A vida íntima de Laura)”

“Rô, Rô, fica aqui na minha sala para eu ir ao banheiro.” 

E escapuli para a sala dos professores para respirar por cinco minutos. Com o corpo agitado, tomei um copo de água e olhei a quadra pela janela. Meu olhar se deteve nas grades azuis que cercavam toda a escola, o que fez meus lábios se contraírem. Para além das grades, vislumbrei uma grande e frondosa árvore que ficava do lado de fora. Por alguns segundos, me perdi nos meus pensamentos e imaginei como ela devia se sentir: bela, grande, livre. Queria subir nos seus galhos e me sentir parte dela por alguns minutos. Sentir o vento inundar meu corpo da mesma forma que envolvia as folhas de sua copa num suave balançar. 

Que coisas ela devia saber das gentes que ali viviam? Que traquinagem das crianças mais novas teria ela presenciado? Que segredos saberia ela dos adolescentes do oitavo ano, que só queriam saber de sentar em bando nas aulas de português? Quem tava pegando quem? Será que ela observava a expressão no rosto das pessoas quando elas chegavam? 

Queria estar lá fora.

Lembrei que precisava voltar para sala e entrei rapidamente no banheiro. Sentei no vaso sanitário, coração acelerado, 11h35 e parecia que o dia não ia acabar nunca. Lembrava da doutora Daniela e respirava, como ela havia me recomendado. 

 Enquanto isso, no 6ºB, Rô insistia com Michael para abrir o caderno. 

“Vamos lá, eu vou te ajudar!”- disse ela num tom calmo, mas ao mesmo tempo muito animado, como se abrir o caderno e copiar a lição fossem a melhor coisa do mundo.

 “Vai, Gabriel, você também! Abre seu caderno. Isso, agora vamos escrever a data.”

“Que dia é hoje?”

“10 de junho.”

“Junho é seis ou sete?” – perguntou um dos meninos com o lápis a postos.

 “Como assim: seis ou sete? Você não sabe, Michael? Um menino inteligente como você? Não acredito!” e fez uma cara espantada que os obrigou a pensar.

“É sete, é sete!” – gritou afoito Gabriel. 

“Sete? Será que é sete?”, ela indagou provocando. Olharam-se sem se atrever a responder, como se uma resposta errada pudesse arruinar tudo. Era uma questão de vida ou morte para eles. Então, a professora emendou uma estratégia “Vamos contar” – disse recitando os meses do ano e contando nos dedos para eles “Janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho…” 

“É seis! É seis!” gritou animado Vinícius, o outro integrante do trio e quem Rosilene conhecia bem.

Vinícius sempre me abraçava quando me via chegar. Era um abraço firme e envolvente. Nunca queria soltar. Às vezes eu me sentia incomodada porque achava que um abraço tão longo não era adequado ao contexto, mas não queria magoar o menino, já muito machucado nessa instituição social chamada escola. Geralmente, esse momento afetuoso era interrompido por outro aluno que também queria um abraço, ou por alguma das meninas que queria saber o que teria de lição.

Todos os dias eu era salva por pequenos momentos: um abraço, um segredo que uma aluna me confiava, a troca com outros professores na hora do intervalo e o cafezinho que eu conseguia tomar porque a Rô ficava na minha sala por alguns minutos.

Apesar de ela ser professora de educação especial, dispensava uma atenção singular a qualquer um que necessitasse de apoio, fosse aluno ou professor. Aquela mulher loira de olhos castanhos e olhar sereno sempre tinha uma palavra amiga e um sorriso nos lábios. Ela me despertava um certo fascínio que não sei explicar de onde vinha. 

Apesar de doce, era muito firme com os alunos. Na verdade, sua presença trazia naturalmente uma certa ordem ao ambiente, mesmo entre nós professores. Não sei exatamente se isso acontecia pelos sessenta anos que definitivamente não aparentava ter, ou se por sua postura de nunca julgar as escolhas alheias. O fato é que a Rô contribuía bastante para acalmar minha ansiedade. Eu gostava de saber que ela estava na escola, mesmo que estivesse em outra sala.

“A prova é hoje, professora” – pergunta Bruna, num misto de ansiedade e preocupação.

“É sim. Tá preparada?”

“Acho que estou!”

Mas era claro que ela estava. Sem dúvida nenhuma, nasceu preparada.

Os alunos ajeitaram as cadeiras, sentaram, fizeram barulho, falaram demais, ralhei, se aquietaram, entreguei as provas, fizeram mais barulho, falaram mais, ralhei mais, se acalmaram. Eu disse que ninguém ia reprovar por causa de uma prova e que deveriam responder o melhor que conseguissem. 

Raro momento de silêncio. Os alunos liam.

“Vini, vou ler uma história para você, tá?” – diz Rosilene enquanto se ajeita na cadeira almofadada da biblioteca. 

“Tá!”

“Presta bastante atenção que eu vou te fazer perguntas sobre ela. Olha, lá, heim? Quero ver se você está atento!”

“Tá!”

“A história chama A vida íntima de Laura. Quem será que é Laura, hein, Vinícius?  

“Uma mulher” – responde ele enquanto esfrega as mãos nas coxas e balança as pernas.

“Será que é uma mulher? Vamos descobrir…” e assim faz a leitura do texto de Clarice Lispector que conta a vida de uma galinha, segundo o narrador, muito simpática e burra.

O menino ajeita os óculos e olha para o tampo redondo e azul da mesa enquanto Rosilene lhe faz perguntas a respeito da história que acabara de ler. Ele é um ótimo ouvinte e entendeu tudo o que tinha naquela narrativa. Entendeu mesmo. Tudinho. Entendeu até demais.

“Vini, olha a Clarice Lispector aqui” – e aponta para a imagem dela no papel antes de começar a ler uma pequena biografia da autora.

O menino olha com desdém.

“Vini, foi ela quem escreveu o texto que acabei de ler. O que você acha dela?”

“Desnecessária!”

“Desnecessária??” – se espantou a professora.

“É: desnecessária!” – respondeu claramente irritado.

“Mas por que desnecessária?” – indagou, ainda incrédula com a resposta do menino.

“Porque ela fica falando da vida dos outros e quem fala da vida dos outros é desnecessária!”

O ano é 1997. Da janela do quarto eu olho as nuvens no céu enquanto tiro meu tênis preto e surrado. Havia sido mais uma manhã comum na escola. “Não se esqueçam da prova de leitura, amanhã”, nos lembrava a professora Célia, enquanto ajeitava sua caixa de giz sobre os diários e seguia para a outra sala. O dia tinha amanhecido aberto, mas o céu já estava todo coberto por nuvens escuras. Deito na minha cama e abro meu livro muito curiosa para saber se os dois meninos vão conseguir escapar da onça. Sinto um cheiro de chuva e ouço o barulho da água gotejando do telhado. A onça se aproxima e eles não têm pra onde fugir. Os pelos do meu braço se arrepiam e eu fecho os olhos e enfio o livro na cara pensando alto “E agora?”. A chuva engrossa e ouço os relâmpagos rasgando o céu. Eu já não sei mais se chove no jardim que está depois da janela ou na floresta à minha frente. Preciso enfrentar a onça, mas tenho medo de ler mais uma sentença e ela me pegar. Amanhã tem prova: preciso terminar. Sento na cama, me ajeito numa postura rígida apoiada na cabeceira de madeira, tomo coragem e sigo.

10:22. Intervalo. Bia entra na sala com seu sorriso largo e sua animação típica de professores de educação física. Fecha a porta atrás de si para abafar a algazarra das crianças no intervalo e dispara “Gente, vocês acreditam que o Paulinho…” e já emenda a história de alguém que subiu no telhado, ou pulou a grade da escola para buscar a bola, ou ainda pulou a grade pra dentro da escola porque não aceitou a suspensão que levou. Me sirvo um café fumegante que tomo sem fome nem vontade, só para distrair a ansiedade que me habita por ter que voltar para a sala dali a pouco. Sentada ao meu lado, Rô come seu mamão com granola e me conta entre risos a história da Clarice desnecessária.

Rio alto. Penso em Vinícius e na nossa luta diária para aprender a ler. Sí-la-ba por sí-la-ba. Palavra por palavra.

Sentada ao lado dele, aponto as imagens no livro que lemos juntos tentando estabelecer uma relação entre as palavras e seus sons e significados. Nada. Não sei alfabetizar. Ele me pergunta sobre minha vida, e eu sobre a dele. Eu conto que moro no Centro e ele me conta do jogo que o distrai quando está sozinho em casa, sem os amigos. Michael se aproxima, logo Gabriel também, depois Carlos. Clara e Bruna chegam logo em seguida e já nem me lembro mais da lição que tinham que fazer. Uma conversa aleatória e pulsante sobre a vida se inicia e já não há mais nenhuma diferença entre mim e aqueles meninos e meninas: somos puro sonho.

Bate o sinal e minha tentativa de leitura fracassada é encerrada pelo fim da aula.    

 Vinícius não sabe ler e isso me dói.

Chego em casa, almoço rapidamente e me jogo no sofá. Fico pensando na prova de Vinicius.

“Desnecessário, desnecessário… Clarice desnecessária. Desnecessário mesmo é o diagnóstico que deram para ele, isso sim!”. Adormeço.

“Vini, vamos subir na árvore?” pergunta Ana, já colocando a perna roliça a postos. O pé vacila por um minuto e seu tênis preto e surrado raspa no tronco fazendo barulho. O amigo a ajuda, empurrando. 

“Consegui! Passa meu livro! Isso! Agora vem!” e estende o braço ao amigo o ajudando a subir também. A vida é uma troca, como bem diz a professora Célia.

Em cima da árvore, os dois sentem uma leve brisa. O cheiro das folhas os envolve. O menino ajeita os óculos e seu olhar se detém nas grades que cercam a escola. Depois delas, está a quadra.

“Hoje na educação física, o Paulinho subiu no telhado… A Bia ficou pistola!”   

“Hahaha. Eu gosto da Bia. Ela deixa as meninas jogarem junto com os meninos”

“Acho certo. Tem menina que joga muito melhor do que os meninos”

“É mesmo. Como chama aquela menina da outra sala, que joga super bem?

“Eu sei de quem você está falando, é da menina do 6º A. Não sei como ela chama. Sei que a professora de matemática não gosta dela”

A menina se apoia no galho grosso da árvore e abre o livro. Se sente segura ali. A árvore é gentil com ela. 

O menino indaga: “Do que fala essa história?”

“De uma galinha!”

“De uma galinha? E o que tem de interessante nisso?”

“Não sei dizer, mas o jeito que ela descreve a galinha parece que tá falando de uma pessoa”

“Lê pra mim?”

O coração da menina se aperta. Ele é tão gentil! Mas não consegue ler. Dizem que ele tem laudo. Que raios é isso? – ela pensa. Começa a leitura e quando chega numa parte que diz que a galinha é burra, o menino se enfurece:

“Isso não é justo! Não dá para ficar falando por aí que ela é burra, mesmo se ela for, ninguém tem nada a ver com isso! Que história boba!”

O interfone toca. Acordo sobressaltada. Entrega de livro.

Sentada no sofá, enquanto abro o pacote de livros que comprei na semana anterior, percebo a associação que Vinícius fez entre o nome que um especialista qualquer deu para sua dificuldade de acompanhar as aulas e a condição de Laura no galinheiro.

Tirou 10.

Empatia extrapola qualquer currículo escolar.  

5 comentários em “Clarice desnecessária

  1. Puxa Ana, estou emocionada !!
    Passou um filme na minha cabeça da nossa convivência tão saudável , com o Vini de coadjuvante! Que garoto maravilhoso…qto ensinamento!!
    Vc descreveu tudo com muitos detalhes, com verdades…
    Bateu saudades…
    Só sei que foi muito bom compartilhar a vida e o trabalho com vc. Uma ligação tão bacana e especial , com pouco tempo de convivência…
    Quem sabe um dia não repetimos a dose…
    Amo vc !!

    Curtido por 1 pessoa

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