Onírico

6:38

Acordo com a claridade da janela que esqueci de vedar com o cobertor, a cortina que minha mãe brilhantemente improvisou na última visita que me fez. Ela sempre arruma um jeitinho para as coisas.

Nunca gostei de claridade para dormir.

Me levanto preocupada e ansiosa pensando se as cestas básicas vão demorar muito para chegar na escola. Penso que poderiam chegar logo às 8hs da manhã para eu já ligar logo para esses alunos e ficar livre disso, afinal, estou em recesso. 

Alguns pensamentos revoltados permeiam meu imaginário me lembrando de todas as coisas de que não gosto nesse emprego. 

“Ah, mas pelo menos você está empregada!” “Ah, tem gente que não tem emprego” “Ah, mas tem coisa muito pior”… Sinto raiva, pego o celular, não adianta esperar mensagem do vigilante antes das 8h30. Sinto mais raiva, me deito novamente, viro para o lado, ajeito o travesseiro, adormeço…

Sonho…

Um lindo céu azul de um dia de verão. Sentada num banco, observo as árvores e a praça à minha frente. Ao longe, ouço um francês  que mal entendo: não me importa, logo aprendo. Tenho comigo uma mochila grande e a impressão de que logo mais estarei em outro lugar. Na mão, um pequeno caderno e uma caneta, gosto de anotar as coisas. Sinto uma leve brisa, fecho os olhos e respiro: me sinto feliz.

Abro os olhos e olho pela janela do trem. Percebo levemente seu movimento, mas sei que ele vai rápido. Queria abrir a janela e colocar a cabeça para fora para sentir o vento bater nos meus cabelos, como quando viajava para o rancho com meu pai. Me ajeito na poltrona, fecho os olhos e lembro de quando eu nadava livremente na represa de Peixoto. 

A água refletia o verde das montanhas e combinava com a cor de meus olhos: verde-esperança. Eu pulava do pesqueiro num lado bem fundo onde não dava pé. Só queria flutuar e sentir a água  envolver todo o meu corpo. Quando me cansava de tentar não afundar, nadava até o cabo que meu pai e meus tios colocaram como limite para nós. Nos pendurávamos ali por horas. Ultrapassávamos o limite muitas vezes. Eu nadava livre.

Abro os olhos e estou numa estação de trem.Muitas pessoas indo para todos os lados. Nunca estive ali, mas sei exatamente onde ir e o que fazer. Vou andando.

Livre 

Acordo novamente. 8:38. Olho as mensagens do vigilante: nada. Nenhuma mensagem, as cestas não chegaram. 

Dessa vez me levanto. Abro a janela. Olho novamente a tela do celular e não tem nenhuma mensagem dele. Levo meu andar ansioso para a cozinha e passo um café preto e forte, como o da minha avó. Gosto de sabores intensos.

Tiro do congelador um dos pães que assei na semana anterior e coloco na fritadeira elétrica. Logo ele descongela e aquece. Parece feito na hora. 

Sento no sofá da sala, olho para a tela do celular mais uma vez: dezenas de mensagens, nenhuma dele. Nenhuma do vigilante.

Abro a mensagem genérica que meu pai me manda todos os dias: uma mensagem pronta, com uma figura fofa e palavras positivas. Não consigo imaginar “Que o dia seja simplesmente lindo, repleto de paz, amor e muitas bênçãos!” saindo da boca de meu pai, um homem fechado e que pouco se expressa, embora saiba que é exatamente o que ele deseja para mim todos os dias. 

Eu respondo sempre que o amo, pois o amo todos os dias e peço para que se cuide, já que pessoas próximas estão com Covid. Ele me manda um áudio: “To cuidando, minha filha, to cuidando. Tá escutando o baruim do serviço?” Ao fundo, escuto o barulho da solda. Meu pai é serralheiro, muito criativo. Sempre tive certeza de que ele e meus tios fundaram as Organizações Tabajara, do finado Casseta e Planeta. 

Sinto saudades de casa, mas a cada dia fico sabendo de mais e mais casos de contágio em Franca. Me preocupo com meus pais. A ideia de perdê-los sem vê-los…. Apago esse pensamento, deleto.

E as cestas, heim?

Nada. Nenhuma mensagem ainda.

Me sinto ansiosa. Me sinto presa.

Divago…

Penso na minha mãe. Bonitona, saudável, uma mulher forte! Come bem, faz exercícios, nos alimenta. E reza. Reza por si, pelas irmãs, reza por todos nós. Reza por mim e me nutre. Se preocupa muito comigo, já me disse algumas vezes que se preocupa mais comigo. 

 “Vovó, vovó, olha!” Nícolas aponta o pássaro no céu. Ama os passarinhos, ama o quintal, ama mais ainda essa avó que brinca, abraça, beija e amassa. “O que o passarinho tá fazendo? Ta voando?”, ela diz. “Sim!” e pega a avó pela mão e a leva ao banco de balanço. Sentam os dois e assim se enamoram pelo tempo que durar a visita.

Visitas cada vez mais raras num tempo em que o contágio só aumenta.

Sinto falta do quintal, do balanço, da alegria contagiante dos meus sobrinhos ao verem a tia.

11:15. Decido almoçar e ir pra escola logo, mesmo sem as cestas terem chegado. Quero acabar com esse sofrimento. No caminho vou pensando o que fazer: ligar em x lugar para ver se chega hoje mesmo; ligar para os alunos do dia; ligar… Chega a mensagem: “Ana, as cestas acabaram de chegar: 102” Ufa! Menos um trabalho.

Enfim termino minha função de telefonista e consigo falar com a maioria dos alunos. Com quem não consigo, peço ajuda aos professores. 17 horas e me dou por vencida: decido ir pra casa. Vou com a sensação de que o trabalho não acabou. 

Estou ansiosa.  Me sinto presa.

Abro a porta da sala e penso na zona que está o apê. Olho no sofá e não tem Mariana. Sento na minha poltrona favorita, olho as plantas que coloquei na frente da TV porque não quero ver as notícias…  Respiro e penso que não dá para passar a vida toda nessa ansiedade. 

Queria voltar pro meu sonho…

“Miga, eu tenho certeza de que você vai pra Europa. Desde quando você foi conhecer o outro apartamento e disse que queria viajar, eu senti que era verdade, sabe? Eu pensei, nossa, essa menina vai mesmo, ela tá falando sério”, diz ao mesmo tempo em que fazemos as contas de quanto cada uma tem que pagar aquele mês. 

Aleatoriamente, um ator parecido com o Tonho da lua se materializa na tela da nossa TV. Rimos. Quando ri, Mariana chacoalha o corpo todo, joga seu cabelo para trás. Sua gargalhada alta preenche a sala inteira e sua companhia, uma parte dos meus dias. 

Hoje, o que preenche a sala é sua ausência.

Sinto fome. Como uma fruta e não tenho ânimo para preparar mais nada. Vou para a cama, e a bagunça do meu quarto me incomoda. Fecho a janela para escurecer o quarto e eu não enxergar o caos: nem dele, nem meu. Estou cansada. 

Afasto as roupas lavadas que recolhi mais cedo e joguei ali em cima da cama e me deito na metade que resta livre. 

Pego o celular e troco algumas mensagens com alguns professores. São mensagens de trabalho, nao aguento mais…

Troco mensagens com a Vanessa, um sonho de pessoa.

“Miga, arrumei mais um motivo para morar na Bélgica e tenho certeza que o Senna vai querer me visitar!” e mando uma matéria sobre o Delirium Cafe. “Nooosssaa, já to indo te visitar agora”. Penso em como eu queria receber essa visita. Aqui mesmo, em Campinas, bebendo Corona extra, ou café, ou água. Ou bebendo apenas da presença uma da outra. Nossos assuntos sem fim. Nossas confissões, trocando medos, trocando sonhos, ideias malucas – mais minhas do que dela. Trocando afeto.  

 E tocando em frente.

21:40. Um pouco mais cedo, eu soube de uma pessoa próxima a meu pai que faleceu hoje de Covid. 42 anos, apenas 8 anos mais velho do que eu. Dessa vez, temo também por mim. 

Temo não fazer a viagem de trem.

Temo não viver o sonho do sono matutino.

Temo não sonhar mais…

Sento e escrevo este texto. Isso me conforta. Já não me sinto tão ansiosa. Talvez me sinta um pouquinho livre.

Mando uma mensagem pra Marla “Ainda tá acordada? Vou publicar mais um.”

Olho pro cursor piscando na tela e penso que falta algo para finalizar. Nada me vem. Só a certeza de que as coisas sempre ficarão assim: meio inacabadas.

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