Memórias de leitura

– Era uma vez… Não, melhor não. Melhor começar assim: “Um dia…”

– Tá falando sozinha? – perguntou a irmã esbugalhando os grandes olhos azuis

-Não, tô pensando alto. 

-Tá pensando em quê?

-Numa história que preciso escrever.

Os olhos da pequena brilharam:

-Finalmente você decidiu escrever um livro? Vai ser de humor, né? Sua cara, Naná, escrever um livro de humor. – falou entusiasmada.

– Não, Sassá. Não é um livro, é só um texto. Tá mais para uma redação escolar.

-Ué, não é você que manda os outros escreverem? Você não é a professora? – indagou a irmã

-É para um curso que fiz. Aliás, tô muito atrasada. Acho que tô com algum tipo de bloqueio criativo. Odeio escrever sob pressão! Acho que nunca mais vou pedir redação pros meus alunos!

Abraçou a irmã, apertou suas bochechas, como sempre fazia, e foi para o quarto onde costumava dormir quando ainda morava com os pais. Não era um quarto grande, não tinha uma decoração especial, suas paredes não eram pintadas com cores diferentes como as do quarto da irmã, mas era onde Ana costumava sonhar quando ainda não tinha ido desbravar o mundo. 

E Ana sonhava. Era uma sonhadora incorrigível. Sonhava quando dormia -e olha que dormia muito! Sonhava acordada. Quando via filmes. Sonhava quando conversava com a irmã sobre as coisas mais simples e as mais extraordinárias. Sonhava até quando não estava fazendo nada. 

Nasceu sonhadora, mas passou a sonhar mais depois que aprendeu a ler. Quando lemos muito, caro leitor, aprendemos a sonhar diferente. São sonhos mais coloridos, em lugares mais bonitos, especiais. Há criaturas maravilhosas. O mundo pode ser do jeito que nós queremos quando lemos.

Pois um dia, quando tinha apenas seis anos e via nas formas das nuvens elefantes e pirulitos, algo aconteceu dentro de sua cabeça curiosa. Ela olhava a lousa descascada da escola pública em que estudava e de repente as letras se juntaram e fizeram sentido: MO-LA. A menina leu. Leu de novo. Leu mais uma vez. Leu em voz alta e se encantou com o que aquela palavra fazia com sua língua. “-Vai ver é por isso que a palavra vai e vem se eu falar muito, né, mamãe? Por que é isso que as molas fazem!”…

 -Terminou sua história? – a irmã foi entrando no quarto e sentando na ponta da cama.

-Não, Não estou nem perto.

Sabrina acariciou o pé da irmã.

– Vamos lá na sala comigo – disse fazendo cara de cachorro sem dono.

-Mas eu tenho que terminar minha história.- lamentou Ana.

-Mas você está de férias e depois você demora para voltar para casa.

-Benhê, sou fessora, não tenho férias – debochou a garota.

A caçula fez cara de quem teve uma grande ideia. Uma boa ideia e disse:

– Naná, bem que você podia fazer outro curso, né? Arrumar um trabalho menos trabalhoso. E que paga mais. Aí você pode me levar para passear. – Arregalou os olhos e deu um sorriso sapeca de quem quer tirar vantagem da situação.

-É, bem que eu podia mesmo fazer outro curso. Prestar um concurso.- Falou enquanto passava preguiçosamente a mão nos cabelos e salvava o arquivo no computador.

Mais tarde, deitada na cama e pensando nas aulas que se iniciariam dali a poucas semanas, Ana se questionava “Eu podia mesmo fazer outra faculdade. Podia mesmo parar de lecionar. Eu devia prestar um concurso”. 

Começaria em uma escola nova no início de fevereiro. Estava ansiosa pelo que viria. Muitas vezes, Ana rolava na cama pensando se daria conta de se levantar para trabalhar no outro dia.  Havia dias em que não queria ir de jeito nenhum. Outros que ia e não queria ficar. E havia dias, poucos dias, em que tudo saia muito bem e ela se sentia feliz no fim do expediente.

Lecionava Português. Era uma luta “Tem que ler tudo isso?” gritava um aluno se referindo a um texto de uma página. Era geral: eles odiavam ler. Os alunos não liam. Não liam os textos da aula de português, não liam o problema da aula de matemática. Não liam sobre o ciclo da água, nas aulas de Ciências e nem sobre a Independência do Brasil nas aulas do professor Marcos. Eles não liam. Eram avessos. E é claro que a culpa era sempre da Ana. Afinal, ela era a professora de português e ela que tinha que fazê-los ler na escola. Mas se o problema fosse só esse, era mais fácil de resolver. Porém, o buraco era mais embaixo: Eles não liam nem fora, nem dentro da escola. Na verdade eles não liam nada. Em lugar nenhum.

Ana imaginou se não era algum tipo de moléstia coletiva, como a cegueira de Saramago. Havia começado em um aluno, numa esquina qualquer. Depois começou a se espalhar. Pegou no filho do vizinho, na filha do açougueiro, até no filho do professor e pronto! Ninguém mais conseguia ler. Seria uma geração iletrada. Insensível. Sem imaginação. Uma geração sem palavras. Como seria o mundo dessa geração? “Ai que horror!!”- Ana pensou. “Não, não, não. O mundo ainda tem jeito. Deve haver por aí crianças que lêem. Deve haver pais que contam histórias! Tem que haver! ”

Ahhh, as histórias… Como Ana amava as histórias quando era pequena! Ouvia histórias em casa e na escola. Depois que aprendeu a ler, participou de muitas histórias. Quando a irmã nasceu, viveu muitas histórias com ela no quintal. Ana já foi até monstro!  Mas era monstro bonzinho, desses que fingem que pegam e que fingem que mordem, mas não mordem nada, só fazem cócegas.

 Ana ainda gostava de histórias, apesar de ter quase trinta anos. E mesmo das histórias mais singelas, de livros infantis. Ela lia por prazer. Lia pela pureza. Lia porque entendia as palavras. Lia porque as palavras a entendiam. E lia principalmente porque as histórias a transformaram numa pessoa melhor. Uma pessoa mais sensível. Foi a leitura que a ensinou a se colocar no papel dos outros. Ela riu de muitos livros bobos, chorou com histórias lindas e ficou maravilhada com o estilo de alguns autores. 

E foi lendo, lendo e lendo que Ana entendeu que as histórias são sempre parecidas, mas que a maneira de contar faz toda a diferença! Por isso que há autores tão especiais, porque eles combinam as palavras de um jeito que nos fazem rir, chorar, ficar com dó, raiva, angústia. “Que coisa engraçada!”- ela pensou certa vez, ainda adolescente- “Eu nem sei que cara tem esse tal de Stephen King, mas é como se o conhecesse há décadas!” A literatura é mesmo assim: nos aproxima de pessoas que nunca vimos, sejam elas personagens ou narradores e nos faz enxergar as coisas de um modo especial. É realmente algo mágico.

Era essa magia que Ana queria que seus alunos descobrissem. Ela só não sabia como fazer isso…

Sabrina abriu a geladeira procurando algo para beliscar, enquanto a irmã comia um pedaço de pão com requeijão. Ao olhar a garrafa de água, se lembrou de uma situação cômica:

-Naná, lembra um dia que você me levou pro trabalho com você, e aí eu tava morrendo de fome e a gente parou para almoçar numa pensão que o copo de água era de graça? – Disse a estudante de Computação em meio a risadas.

-Mais ou menos – respondeu a irmã mais velha tentando resgatar aquela memória.

-Foi um dia que eu não lembro porque você me levou na escola com você, e aí só tinha essa pensão que tinha o prato do dia. E nesse dia tinha arroz, feijão, galinha e cabotiá e eu não gosto de cabotiá. Aí eu comi só a galinha e bebi muita água. Hahahahahaha!

– Eu lembro! Hahahahaha! 

– Por que você me levou lá, aquele dia?

– Não sei. Eu te levava para todos os lugares. 

-Foi engraçado.

-Sá, podíamos começar a escrever essas memórias. Podíamos fazer um livro de memórias.

-Ah, vai ficar engraçado – falou rindo a menor.

-Vai mesmo. Nossa vida é engraçada! – concluiu a maior.

Passaram um longo período lembrando de situações que viveram. Contavam uma. Lembravam de outra. Conversavam e riam, e assim foi por toda a noite. Sempre foram amigas, apesar da grande diferença de idade. Compartilharam o mesmo quarto até o irmão mais velho se casar. Depois que passaram a ter quartos individuais, sempre dormiam uma no quarto da outra, para relembrar os bons tempos.

 Memórias. A vida delas era repleta de lembranças. Boas lembranças. Momentos que Ana se esforçava para lembrar. Que as duas não queriam esquecer. Até que a ideia de fazer um livro de memórias não era ruim. Pelo menos assim as histórias vividas por elas não se perderiam.

Antes de dormir, Ana começou a pensar no livro de memórias que gostaria de escrever com sua irmã e teve uma ideia para incentivar seus alunos a lerem mais: contar suas histórias. Ana era assim: não se desligava do trabalho, mas isso deve ser mal de professor.

Dormiu pensando naquilo e sonhou. Sonhou que contava uma história engraçada que vivera ao lado da irmã para seus alunos e que eles riam e contavam suas próprias histórias. Foi um sonho tão bom que quando Ana acordou, ela continuou sonhando. Se programou para contar e ler memórias para seus alunos. Iriam ler, escrever memórias, compartilhar. Seria tudo uma grande festa. A festa das boas lembranças! 

Assim, os alunos não seriam mais iletrados e infelizes. O mundo tinha jeito. Era só ler histórias para os alunos. Não reclamariam mais de ler uma página. Logo estariam lendo Pedro Bandeira, depois Monteiro Lobato, Stephen King, José Saramago. Estariam lendo bulas, placas, cartazes. Logo escreveriam para o editorial do jornal. Ganhariam o Nobel da Literatura! Uau!! 

Ela iria salvá-los! Ela queria salvá-los. Conseguiria ela salvá-los?

– O que você tá lendo, Sá?

– Um livro com tirinhas do Calvin e Haroldo.

Ana se juntou à irmã na cama, riu de uma das tirinhas, lhe beijou a cabeça. Dirigiu seu olhar pelo quarto da irmã e percebeu um livro de terror que havia lhe dado quando ainda era criança. Seus pensamentos vaguearam e se tornaram uma lembrança.

Sabrina não costumava ler tanto até ganhar aquele livro de Ana. Era um livro de Stephen King: “A Dança da Morte”. Tinha quase 1000 páginas e não era um livro recomendado para uma criança de dez anos, mas Ana não se importava com isso: a história era boa! Além disso, você só parava de ler quando o livro acabava, de tão bom que ele era. Depois desse livro, a menina menor estava sempre lendo. Sempre procurando livros que a tocassem de alguma forma.

 Sabrina riu de outra tirinha, despertando a atenção da irmã. Ana chegou mais perto dela, se aconchegou, a abraçou e pensou: “Essa eu salvei!” 

(Texto de 2015, uma época muito muito muito anterior à pandemia do Coronavírus)

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