Pés putos

Seu corpo pesa sobre nós

Você pisa tão duro

Parece que quer esmagar todas as flores do caminho

Chutar pra longe todas as pedras

Olha, elas também fazem parte!

Só queremos ir mais devagar

Sair do piloto automático e sentir o chão todo

Do calcanhar à ponta dos dedos

Como e onde estamos pisando? 

Precisamos saber!

Passamos o dia inteiro presos nessas meias grossas

As tramas do tecido nos amordaçam

nossa função é o movimento

Mas estamos imobilizados no tênis esportivo

É uma contradição!

Queremos respirar

Ser postos para cima 

Nus

Completamente nus

Apenas sentindo os raios de sol

E o balançar da rede

Poder separar nossos dedos e movimentá-los 

À vontade

Pra lá e pra cá.

Tanto tempo faz que não nos leva a passeio

Queremos sentir novamente a grama fofa e úmida do amanhecer.

Correr na areia quente e fofa até o mar

Aahhh o mar!

Flutuar no balanço das ondas

E nem lembrar da rigidez do asfalto

Da dureza das ruas e dos dias.

Joga logo fora todos esses sapatos que nos machucam!

Nem você aguenta mais usar o que não te serve.

E as viagens que nos prometeu?

Heim?

Já esqueceu como foi a andança pela Patagônia?

Trilhas tão diversas

Tão longas

E lindas.

E o resto da América do Sul?

E o mochilão pela Europa?

Mas o pior não é o marasmo apertado dos nossos dias,

Sabe?

É a ingratidão 

Queremos que nos olhe

Nos respeite.

Reconheça que sobre nós não há queixas

Por que você só olha para aquilo que acha um problema?

Sinceramente, 

Pé direito e Pé esquerdo.

Bernardo

Bernardo andava rapidamente pela areia macia buscando alguma comida. Tinha predileção por restos de tamboril, seu peixe favorito, mas também gostava bastante de dejetos, achava-os adocicados. Certa vez, encontrou uma carcaça de Bicuda quase inteira. Parecia fresca: devia ter uns dois dias. Se aproximou e com a garra direita arrancou um belo pedaço. Saboreou aquele banquete por algumas horas, até o cansaço chegar. Andara bastante naquele dia, como em todos os outros, à procura de boas refeições. Era a gula o pecado mais presente nos seus dias e do qual jamais se redimiria: comia tudo o que encontrava pela frente. 

E adorava.

Além de glutão era também ladrão. Qualquer casa mais interessante e maior do que a sua, logo se tornava objeto de desejo e ele esperava a hora certa para invadir. Certa vez, encontrou uma bem sofisticada. Tinha uma cor interessante, as paredes texturizadas tinham um aspecto rajado de uma cor que lembrava nuances ora salmão, ora marfim. A  abertura frontal tinha o tamanho ideal para deixar seu corpo preso com a metade para fora, com as antenas e olhos bem posicionados do jeito que ele gostava. Além de tudo, era muito espaçosa. Olhou ao redor para ver se estava sozinho e enfiou as garras para se certificar de que não havia ninguém nos fundos. Sentiu um objeto liso e redondo. Curioso, segurou com cuidado e o tirou de lá de dentro, trazendo próximo aos olhos. Olhou fascinado para a pequena bola que reluzia e jogava luz aos corais um pouco à frente. Por um breve momento, apenas sentiu o balanço suave da maresia. Então se lembrou que precisava entrar logo, antes que alguém chegasse. Rapidamente, jogou a parte mais mole de seu corpo para dentro, aconchegando a pérola no fundo, junto de si

Resolveu subir até a beira da praia para aproveitar o calor do sol e a areia quente típicos do verão e que logo se despediria. Encontrou um monte fofo de areia perdido entre algumas pedras e se alojou ali, aproveitando a brisa. Estava relaxado sentindo o sol bater em suas pequenas presas e patas quando uma concha muito bonita lhe chamou a atenção.

Era a concha mais bonita que já tinha visto.

Welcome to the jungle

Num fim de tarde, uma andorinha voa sozinha no céu de fundo azul e nuvens brancas espaçadas, acima das copas das árvores de um pequeno bosque. Um pouco adiante, voam dois urubus sedentos pelos restos de algum cadáver. 

Qualquer um que seja: bicho ou gente. 

O bosque fica numa área central e movimentada da cidade. O verde intenso de suas árvores altas contrastam com os tons cinzas e descascados dos muros antigos e pichados de prédios e casas que o rodeiam. Em seu interior, algumas cutias e tucanos são livres pra transitar entre as gentes brancas que ali visitam. Outros animais não têm a mesma sorte e permanecem enjaulados em condições consideradas precárias por uns e excelentes por outros. 

Quem decide quem merece a liberdade? 

É mesmo livre a cutia que está fora da jaula?

Quando rodeamos o pequeno bosque pelo lado de fora, passamos em frente a um Centro POP que fica do outro lado da rua. Lá, se acolhe meninos de rua que atingiram a maioridade. Se acolhe mesmo? 

Já não são mais meninos. Ou são?

O que define a maioridade? 

Apesar de serem vizinhos do bosque e poderem observar as árvores e as cutias pelas grades verdes que circundam todo o lugar, os moradores de lá não são bem vindos em seu interior bem cuidado e parcialmente asfaltado. Caminhar entre as árvores ouvindo os pássaros e sentido cheiro de vida não está ao alcance deles, mesmo sendo um passeio gratuito. Na entrada, há sempre um vigilante com colete à prova de balas, um cassetete e uma arma de choque. 

É preciso vigiar a entrada do bosque. 

É preciso vigiar a cidade. 

Esse não é o único bosque daqui. E nem o único espaço verde muito bem vigiado perdido entre bairros nobres. 

Uma vez, li um levantamento feito por um órgão da cidade que dizia que o número de árvores nos bairros era proporcional à renda dos moradores: mais ar para quem tem mais dinheiro.

No Centro POP, há regras e horários que são cumpridos à risca para se garantir os direitos à alimentação, banho e descanso de todos que moram ali. Assim como no bosque, onde os animais recebem tratamento previamente agendado de acordo com a escala de trabalho do funcionário do dia.

É preciso cuidar. 

Conforme escurece, não se vê mais nem a andorinha, nem os urubus no céu. 

São 8 da noite e o bosque já está fechado. Também já deu o horário do toque de recolher na cidade por causa do aumento de números de casos da Covid. 

Foram os urubus pras filas dos hospitais?

De dentro do bosque, os animais contemplam a noite escura e fria sem se dar conta do que acontece aqui fora.

No Centro POP, os moradores só podem tirar a máscara par comer, tomar banho e dormir. Há uma agenda pra prevenir a contaminação entre eles. 

As gentes brancas já estão em suas casas, tomando seus banhos quentes depois de sua corrida diária, sem máscara. A máscara incomoda na hora da corrida, deixa sem ar. Então, logo que elas entram no bosque, mesmo sendo proibido, arrancam logo a máscara pro treino de corrida render melhor. É preciso cuidar da saúde, afinal.

 A vida das gentes brancas não tem agenda. Podem fazer o que quiserem, quando quiserem.  Só não podem sair depois das 8 da noite. 

Nesse horário, os animais estão todos na jaula. 

Quem é realmente livre?

Um brinde.

Quando eu tinha 20 anos, vivi uma história de amor.

Nos conhecemos numa exposição de arte duvidosa que acontecia no salão de festas do clube da cidade. Passamos a tarde conversando e quando eu precisava ir, ele decidiu me acompanhar.

Durante o trajeto, paramos várias vezes pra nos beijar. Já perto de casa, desvencilhei minha língua da dele com medo de alguém nos ver. 

Nossos corpos entrelaçados se apoiavam no muro da escola em que estudei no ensino fundamental. Eu me agarrei a ele trazendo seu corpo para ainda mais perto do meu:

“Preciso ir”

Ele me olhou profundo e triste, passou a mão pelo meu rosto:

“Você é tão linda! Queria te colocar dentro de uma garrafinha, te levar pra casa e ficar te olhando” 

Me beijou mais. 

Eu precisava terminar o trajeto até em casa, mas não queria. Desci a rua, atravessei a ponte. Olhei pra trás para ver se ele ainda estava lá.

Estava.

Me olhando, me desejando, mal esperando o dia de me encontrar de novo. 

Subi a rua, virei a esquina e abri o portão, mas queria voltar para esquina da escola. 

Queria outro beijo. Outros.

Mal podia esperar para vê-lo de novo. 

Eu assitia a uma aula da qual não me lembro e recebi uma mensagem dele dizendo que estava no teatro que tinha em frente à faculdade e havia trazido um presente pra mim. Desci as escadas correndo, quase caindo, e atravessei a rua. Ele me esperava na portaria.

Ali estava ele: presente para mim.

Pegou dois ônibus para me levar um bombom sonho de valsa. 

“Achei que o bombom era um bom pretexto pra te ver”

Olhei para ele com carinho.

Admirei aquele momento e guardei-o dentro do peito confuso com tantas coisas que aconteciam em casa.

Guardei o bombom pra abrir num momento especial. Ou não abrir nunca. 

Era um troféu.

Melhor: era um tesouro. 

Naquele dia, matei aula para assistirmos a uma peça.

O pai dele tinha um dos meus nomes. Eu achava aquilo engraçado. Sua mãe era tristeza e saudade que a morte levara muitos anos antes do nosso encontro.

Certo dia, ele me contou uma história de quando a ex-noiva terminou com ele e deixou para ele pagar o carnê com as prestações do fogão que tinham comprado juntos.

Eles almoçavam na mãe dela e depois de terminar com ele “comeu dois pratos bem cheios e disse à mãe que fazia tempo que não almoçava tão bem. Eu senti como se ela estivesse aliviada de terminar comigo, sabe?”,  relatou com olhos tristes.  

Por mais que eu quisesse passar mais tempo com ele, as coisas eram difíceis para mim. 

Em casa, era difícil.

Minha ausência começou a lhe incomodar.

Eu queria passar mais tempo com ele. O tempo todo, para ser sincera. Resolvi surpreender.

Numa sexta-feira, peguei folga do trabalho, tomei dois ônibus e fui à  casa dele.

Bati palmas no portão, chamei. Tinha comigo batatas, massa para macarrão e molho de tomate.

Os cachorros latiram. Ele veio abrir o portão muito surpreso, mas não pareceu feliz. 

“O que veio fazer aqui?”

“Vim ficar com você!” 

Abriu o portão, me chamou pra entrar meio desconcertado. Coloquei as coisas no balcão que dividia a cozinha da sala/quarto. 

O quarto/quarto ele tinha transformado num lugar de pintar, desenhar, riscar. 

Dentro de seu corpo miúdo, carregava todas as dores do mundo. 

As dores da perda da mãe.

As dores da pobreza. 

As dores de compreender os abismos sociais que existem em nosso país.

Desde criança, desenhava suas dores.

Nunca desenhou a dor da minha ausência. Talvez não fosse uma dor digna de seus traços densos e marcados. Talvez a minha ausência fosse dor para mim e para ele apenas incômodo.  

Talvez o fogão doesse mais, porque doía no bolso.

Não. Não posso ser injusta. Ele não era assim. Era bem menos apegado ao dinheiro do que meu pai gostaria que ele fosse. 

Eu gostaria que meu pai fosse um pouco apegado à arte e menos ao dinheiro. 

Talvez, se o namoro tivesse durado mais tempo, eles pudessem ensinar um ao outro sobre suas paixões. 

Mas não durou.

Sentei na cama que ocupava metade da sala. Não porque a cama fosse grande, era uma cama de solteiro comum. A sala que era pequena, como os outros três cômodos da casa.

Eu estava feliz por estar ali.

Olhei-o e admirei seu rosto. Os olhos verdes e grandes, muito bonitos, porém não tão bonitos quanto os meus, eram emoldurados por sobrancelhas espessas. O nariz e a boca eram bem marcados numa feição masculina de poros grossos. Eu adorava a pele áspera de seu rosto. Gostava de passar a mão por suas bochechas e queixo. Tinha os cabelos longos, lisos e castanhos. Esses eram definitivamente muito mais bonitos do que os meus, embora os meus fossem bem bonitos. 

Ele me olhou não com a delicadeza de sempre, mas com uma expressão que eu não consegui decifrar. Raiva? Angústia? Decepção?

De súbito, vomitou logo:

“Ontem à noite, ela veio aqui. Disse que quer voltar”

Demorei um momento para processar essa informação.

A expressão indecifrável de minutos antes se fez clara e eu me desfiz: separação.

Sentada no sofá, ao lado de um vaso com uma planta morta, seguro um bombom sonho de valsa lembrando com carinho de detalhes que só dizem respeito a mim e a ele. 

Desembrulho o bombom e o trago junto ao nariz. Me lembro vagamente da sensação de ser desejada e desejar.  

Fico feliz por sentir o cheiro das coisas e me pergunto se um dia a Pandemia vai acabar no Brasil. Desejaremos e seremos desejados novamente? Os desejos se transformarão em encontros amorosos?

Levo o bombom à boca e o contato dos meus lábios com o chocolate me remonta aos beijos apaixonados daquele amor de juventude, vivido há mais de uma década e meia. 

Engulo com satisfação desejando sentir novamente.

Se a pandemia não acabar, pelo menos me restam as memórias.

Antes de outra mordida, levanto o bombom no ar como se brindasse: 

A você, T.

Duro como pedra

As batatas assadas ficaram duras e quase quebraram de novo o dente que arranquei semana passada. Não arranquei o dente comendo batatas, claro. Flavinho decidiu descontar sua raiva em mim e deu um belo soco bem no meio da minha cara, enquanto seus dois servos me seguravam na hora do intervalo. 

Sempre fui um alvo fácil. Péricles, o professor de educação física, usou seus bíceps definidos e sempre à mostra em camiseta regata qualquer para apartar a briga, segundo ele. Isso mesmo: ele usou a palavra “apartar” quando relatou a confusão para d. Dolores.

 Fiquei pensando que pra uma briga ser apartada duas pessoas têm que estar batendo, mas eu nem me atrevi a argumentar. Também fiquei me perguntando se como professor ele não deveria usar pelo menos camisetas com mangas. Algumas meninas mais assanhadas nem se faziam de rogadas e chegavam até a fazer gracinhas para o professor. 

 Enquanto eu estancava o sangue que jorrava da minha boca com a manga do moletom, Dolores bradava sua corriqueira lição de moral enquanto ajeitava a gola rolê “No Colégio Atlantísia os valores estão em primeiro lugar, meninos. Vocês têm que ser homens e resolver as coisas de forma civilizada. Dois dias em casa para pensar”. De onde ela tirou que isso era um castigo eficiente? Até parece que eu passaria dois dias pensando no murrão que levei do Flavinho. Até parece que o Flavinho era capaz de pensar…

Quando esse tipo de coisa acontecia, minha mãe chorava pelos cantos grunhindo “Onde foi que eu errei? O que eu fiz para merecer isso?”, e se esvaía em lágrimas toda vez que passava por mim e tinha que encarar o filho fracassado de 15 anos. Meu pai inconformado que eu não tinha sido homem suficiente para “partir a cara do moleque ao meio” determinou que eu me virasse com o dentista e já avisou que eu ficaria dois meses sem receber nada do suado dinheiro que ele ganhava em sua própria empresa de forma honesta.  Eu sempre ficava sem mesada.

Gastei R$ 200,00 das minhas suadas economias para consertar o maldito dente. Se não fosse o dente da frente, teria deixado quebrado, mas o buraco comporia uma cena ainda mais ridícula junto com as lentes grossas dos meus óculos e meu rosto redondo e cheio de espinhas.

Hoje o Lucca veio aqui em casa e me pediu dois adesivos. Não queria dar, mas ele é meu único amigo. No colégio, somos os mais feios da sala. Arrisco a dizer que estamos entre os piores do colégio, perdendo só para o Tadeu, que além de ter uma cara feia, é alto demais e muito magro. As roupas ficam sempre muito curtas e muito largas, sem contar os sapatos que são enormes. Dizem que ele ainda vai crescer mais. Coitado!

Lucca e eu temos cara de nerd, mas tiramos notas horríveis e sempre estamos de recuperação  em alguma matéria, até trabalho extra de educação física já precisamos fazer porque ninguém nunca nos escolhe para fazer parte de time nenhum. Não ligo: prefiro desenhar meus adesivos.

Lucca é mais magro que eu, mas nem assim é bonito. Aliás, não chega nem perto disso. Ele é um tipo miúdo que usa roupas sem graça e tem um narigão enorme. Moramos na mesma rua e nos conhecemos desde o jardim de infância. Ele também não é o orgulho dos pais e também leva a culpa por tudo. Geralmente levamos a culpa por tudo juntos.

No dia em que choveu granizo lá fora e quebrou uma das janelas da d. Nezia, a vizinha que mora na casa ao lado, ela insistiu que nós tínhamos jogado pedra na janela dela. Assim que a chuva passou, veio com sua cara mal humorada até a porta, usou a ponta da bengala para apertar a campainha e quando minha mãe atendeu, já foi logo soltando “Esse seu filho e o filho da Márcia são dois delinquentes! Aproveitaram a chuva para quebrar minha janela” e abriu a mão mostrando uma pedra que ela devia ter catado no próprio jardim. Eu e Lucca estávamos no quarto jogando Free Fire quando meu pai abriu a porta e já foi logo enxotando ele para fora. Gritou que eu era um inconsequente, que não tinha jeito, levantou a mão pesada no ar e eu já me preparava para uma bofetada na cara quando ele desistiu no meio do caminho. 

Em vez da bofetada, abaixou o braço, revirou os olhos, esfregou a mão na testa, ajeitou o nó da gravata e me olhou com o mesmo desprezo de sempre, murmurou que eu não valia o estresse que fazia ele passar todo o dia, determinou que pelo resto do mês eu só sairia para ir à escola, saiu pisando duro e bateu a porta do meu quarto atrás de si.

Ainda era dia 4 e eu passei o resto do mês trancado no quarto. Passava horas deitado na cama, olhando para o teto enquanto pensava coisas aleatórias. “Cadê o Elvis? Ele ainda está vivo? Quantos anos ele teria se ainda estivesse vivo? O Elvis eu não sei, mas o Michael Jackson tenho certeza de que ainda está vivo. Elvis não é o nome do papagaio da d. Elisa? Nome estranho para um papagaio…”

Num dos intermináveis finais de tarde daquele castigo, eu olhava as estrelas pintadas no teto do meu quarto e lembrava de quando era criança e ainda não tinha me tornado um fracasso total. 

Eu devia ter uns quatro anos e minha mãe não trabalhava fora.  Me lembro de brincar no meu quarto com meus carrinhos e aviões dentro da barraquinha de pirata que ficava perto da minha cama e minha mãe entrar e sentar no chão junto comigo. Eu fazia o avião voar perto de seu nariz e ela me abraçava e beijava orgulhosa. Depois, cheirava meu cabelo e ficava ali me fazendo companhia. Então meu pai chegava, me pegava no colo fingindo que o avião era eu e eu quase alcançava as estrelas. Era o único jeito de meu avião realmente alcançar o céu.

Olhando pela janela, percebo que anoiteceu e faz uma noite especialmente escura. No céu negro encoberto por nuvens carregadas, apenas uma estrela escapou da escuridão e brilha. Fico pensando se ela se sente tão sozinha quanto eu. Me lembro de um livro que lemos para a aula de português em que o personagem acordava e tinha se tornado uma barata. Eu me sinto como ele: sozinho e nojento.

Hoje o dia foi insano. Vou tomar um banho e ler o livro da aula de ciências para o seminário “Os répteis e seu habitat natural”, podia até ser minha biografia, pensando bem. Pego um dos resumos que ficaram péssimos, amasso e arremesso no lixo que fica ao lado da escrivaninha. 

Erro.

Que novidade heim, Pedro? Digo a mim mesmo em voz alta com decepção. 

Errar é corriqueiro para mim.

Entro no chuveiro e enquanto esfrego as dobras da minha barriga, o barulho se mistura à chuva torrencial que cai lá fora. 

Me lembro de quando eu era pequeno e podia brincar no quintal quando chovia. Eu olhava para o céu de boca aberta e tentava beber aquela água. Minha mãe olhava da janela da cozinha e sorria. Eu gritava alegre “Olha a chuva, mamãe! Olha!” Depois de um tempo eu começava a sentir frio e voltava para dentro pulando as poças. Minha mãe me esperava na porta da cozinha com uma toalha e me levava direto para um banho quentinho. Eu adorava o calor do banheiro e o vapor que ficava lá dentro. Depois do banho, sempre desenhávamos com os dedos no espelho do banheiro.

Um trovão rompe os céus e o barulho me assusta.

Não sei mais se o que molha meu rosto é água do chuveiro ou o choro.

Será que a estrela solitária ainda brilha lá fora?

Acaba?

Mari, essa semana me aconteceu algo tão inusitado. 

Uma história tão maluca! 

Um cara me mandou uma mensagem no Instagram dizendo que tinha achado no meio de documentos antigos uma carta minha de 20 anos atrás. Claro que ignorei solenemente pensando ser algum tipo de trote. Mas acredita que ele mandou foto da carta?

Minha mesmo, Mari. Uma Ana Amélia de 14 anos purinha! 

Cada frase piegas. Você ia amar!! 

Como eu queria que você estivesse aqui para te contar essa história.

Mostrei pra algumas pessoas próximas, demos muita risada, mas não é como rir com você.

Fico imaginando a gente na sala com a TV ligada num programa qualquer.  Você estaria com o controle da TV na mão, sentada na sua antiga cama, que usávamos como sofá. O celular sempre por perto, do seu lado, em cima da colcha quadriculada com enormes quadrados  verdes e amarelos que cobria o colchão de molas já um pouco estufadas. Esse era seu lugar na sala: bem em frente à TV e algumas de nossas plantas. 

Já eu gostava era do sofá marrom, parecido com um divã. Aquele sofá era definitivamente meu lugar favorito do apartamento na rua Conceição. Estaríamos sentadas lado a lado, como sempre. Eu veria uma foto de Freud e diria que ele devia ser muito fofinho, e você riria da minha cara dizendo alto “Ana Amélia, Ana Amélia” com um tom reprovador e zombeteiro.

De repente, olhando o Instagram, eu me depararia com a mensagem do moço e com as fotos da misteriosa carta datada de maio de 2000.

“Neiva do céu, olha essa história!” – eu indagaria te chamando pelo codinome que usávamos para nos referir uma à outra na intimidade dos nossos dias. Eu leria a carta em voz alta e riríamos alto de cada frase piegas. 

Riríamos e riríamos, lacrimejando. As bochechas doendo e a gente rindo mais ainda por elas doerem.

Gargalharíamos tão alto que junto com nossos corpos chacoalharíamos todas as paredes do apartamento 52.

Depois, começaríamos a dividir memórias de nossas adolescências vividas no início dos anos 2000. Você em São José, com sua família negra e progressista e eu em Franca, com minha família branca e conservadora. 

Por alguns minutos, mas não muitos, ignoraríamos todas as barbáries cometidas pelo governo federal em meio a uma Pandemia que já ceifou a vida de mais de 260.000 brasileiros.

Depois, veríamos alguma barbaridade do governo e nos indignaríamos. Lembraríamos de nossos 15 anos não mais com alegria, mas com pesar pela menina de 13 anos que morreu em decorrência de uma síndrome pós-covid e talvez nunca tenha tido a chance de escrever uma carta piegas.

Aparentemente, quem não desenvolve sintomas, também pode morrer.

E quem não pega Covid também, né, Mari?

A vida pulsava tanto em você e você estava tão feliz, mas tão feliz de ver sua família reunida depois de 8 meses distantes por causa do isolamento, que naquele dia a vida foi tanta que arrebentou os limites das veias e encharcou seu coração todinho. A vida não coube mais nesse plano. 

Naquela semana, durante nossa última conversa, falamos sobre você voltar pra casa. Você estava esperando os índices em Campinas melhorarem pra voltar pra cá. Nem fazíamos ideia de como ainda não havíamos chegado no pior da Pandemia. Agora tem até variante, Neiva! Mais transmissível e mais mortal. 

Sabe o que é pior, Mari? Eu nem sei se esse é o pior dela. Ainda acho que as coisas vão piorar. 

Não consigo ser otimista nesse cenário. 

Ainda estou de luto, Mari. 

Onde eu moro agora tem uma sacada com vista pro Bosque dos Jequitibás. Eu deito na rede de quadrados grandes e amarelos que instalei na sacada e fico olhando a copa das árvores enquanto ouço os pássaros.  É tranquilo e solitário aqui. 

Sempre que olho para o céu, penso em você. Acho que é aquela ideia infantil de que agora você está lá. Mas lá onde?

Onde é o céu, Neiva?

As gotas de chuva que molham o vidro da sacada são parecidas com as lágrimas que molham esse meu pensamento. Minha garganta se fecha e minha língua se contrai na raiva que escolho esconder.

Eu a escondo, mas ela está aqui. Vou ficar chorando até quando, sr. Presidente?

Ainda estou de luto, minha amiga.

Eu não sei quando a pandemia acaba, nem se um dia ela acaba.

O que eu sei é que você não volta mais pra casa. 

Eu sei que 260.000 não voltam. 

Será que o luto um dia acaba?

Diário de classe

Mais uma vez a chuva alaga tudo e transforma a cidade em um caos. Nas redes, a corrida eleitoral para a capital paulista ferve. Olho para o poste ao meu lado e vejo pregado nele uma dica de como fazer o bolo crescer. Me interesso. Percebo algumas gotas grossas caírem do céu e penso alto “Caralho, esqueci o guarda-chuva”. Volto correndo para casa para buscar. No caminho, a chuva engrossa e logo na entrada de casa me deparo com uma barata morta e encharcada, presa numa das grades do portãozinho branco que dá acesso ao cômodo de fundo arduamente alugado com o ordenado de professora. Chuto a barata para longe sentindo nojo enquanto penso que a calha deve estar entupida de novo. Ando rapidamente pelo corredor estreito esbarrando nas paredes descascadas e escurecidas, tentando fugir das goteiras.

Quando abro a porta do cômodo que me serve de quarto/sala e escritório, já estou encharcada. Vou até o banheiro, tiro toda a roupa e coloco dentro de uma sacola. Estou com pressa e não tenho tempo de arrumar isso agora. Enxáguo meu corpo rapidamente, boto uma roupa seca e vou saindo quase esquecendo o guarda-chuva. Corro apressada para não perder o ônibus.

Na esquina, sou interrompida por uma fila de pessoas esperando abrir o sinal. É dia de feira e enquanto espero pelo demorado sinal, observo uma mulher tentando equilibrar várias sacolas em um braço e uma criança pequena no outro. A menininha usa um moletom amarelo e esconde o rostinho no peito da mãe. Enquanto isso, com o mesmo braço que segura a menina, a mãe  dança com um guarda-chuva para lá e para cá tentando protegê-la dos pingos gelados. Em São Paulo não dá mesmo para esquecer o guarda-chuva. Nunca.

O sinal abre e atravesso junto com a multidão. Piso numa poça e minha meia se encharca. “Droga, Minha favorita!” – penso dessa vez sem emitir ruídos e imagino o rosto de um sorridente Augusto fantasiado de dinossauro estampando meu tornozelo.

Subo no ônibus apressada e me espremo entre as pessoas, tentando encontrar onde segurar. Acho que nem as laranjas são tão espremidas quanto os pobres em ônibus lotados, ainda mais nos horários de pico. Meu trajeto é longo. Pego ainda mais duas conduções até chegar à escola em que trabalho.   

Entro pelo portão azul de pintura desgastada, cumprimento alguns alunos que já estão por ali e me apresso para a sala dos professores. Guardo rapidamente as coisas no armário e sigo para a sala do 9ºB. O professor do período da manhã deixou a lousa sem apagar. Detesto isso! Apago com um pouco mais de força que o habitual e uma parte da tinta verde dela se despedaça. 

“Ihhh, ta nervosiiinhaaa heim, dona?” Ouço Jean gritar do fundo da sala enquanto empina a cadeira para trás. “Arruma essa cadeira, Jean!” Uso a lousa mesmo com o pedaço descascado. Se tem uma coisa que professor de rede pública sabe, é fazer as coisas com o que tem. 

No intervalo, acesso o Instagram enquanto como uma maçã. Leio a publicação de um colega sobre novos cortes na educação. O coordenador entra na sala e me enche s saco pedindo as notas do bimestre. Ainda não fechei. Passei o fim de semana fazendo a revisão de uma tese para ganhar um extra e pagar a conta de luz que já está atrasada há mais de dois meses. “Não podem cortar minha luz”, eu penso enquanto ouço o sinal marcando o fim do intervalo. Começo a me levantar da mesa ao mesmo tempo em que digo ao coordenador insistente que entrego as notas até o fim da semana. “Sem falta!” – ele retruca.

No caminho de volta para casa tem menos gente no ônibus e consigo me sentar. Encosto a cabeça na janela e observo a noite escura. Meus olhos se fecham repetidas vezes em piscadas longas devido ao cansaço excessivo e vou tentando fazer uma lista mental de tudo que preciso fazer naquela noite ainda: “Fechar as notas dos nonos anos, revisar a tese do historiador, preparar a aula do 1ºC…”   

Finalmente chego em casa.

Tiro rapidamente o tênis e a meia que passaram o dia molhados. Coloco o tênis atrás da geladeira e a meia na sacola junto com as outras roupas molhadas. Me sento na privada para tirar o resto das roupas porque o cansaço é tanto que não quero passar mais um minuto em pé. Sinto minhas costas se contraírem em pequenos focos de dor. Tento espichar a coluna para ver se melhora “Preciso fazer exercícios”- lamento para mim mesma. Já nua, deixo a água escorrer bem quente e envolver todo meu corpo gelado e cansado. Vagarosamente, ensaboo meus cabelos. Vou massageando minha cabeça de olhos fechados embaixo da água e aprecio cada momento. Ouço um barulho surdo, e abro os olhos sobressaltada. “Será que é tiro?”Tudo está escuro e a água agora está gelada. Então me dou conta de que é o disjuntor que queimou de vez. Primeiro fico aliviada, mas logo em seguida me sinto nervosa por ter meu único momento de prazer interrompido, Fecho rapidamente o chuveiro porque já estou com frio novamente. Com a lanterna do celular, ilumino o curto caminho entre o banheiro e a cozinha. Acendo uma das bocas do fogão usando um palito de fósforo e encho uma panela de água que esquento para terminar de lavar meu cabelo. Aproveito para ferver água para fazer um chá de hortelã.

Visto uma par de meias seco, dessa vez uma estampa romântica que contraria toda a dureza do dia: pequenas flores rosas se destacam sobre um fundo cinza. Olho a tela do celular e vejo que são 9 da noite. Estou completamente no escuro e não há o que fazer enquanto o problema do disjuntor não for resolvido. Me dou por vencida e deito na cama sem culpa por não conseguir realizar os afazeres da minha lista. Graças à falta de luz, finalmente posso dormir em paz e sonhar com a live do Caetano e com o bolo crescendo.

Revoada

Era verão. Em Leme, sempre faz muito calor nessa época. O céu estava bem azul e não tinha uma nuvem para contar história. Ansiosa, Salete abriu a geladeira em busca da garrafa de água. Avistou no fundo dela o doce de mamão que havia feito no dia anterior. Ela havia colocado ali meio escondido porque estava comendo demais. Não resistiu: comeu mais um pouco, saboreando sua textura macia embebida na calda grossa açucarada. 

A jovem mulher se sentia especialmente feliz nos últimos dias, porém aquele calor estava lhe dando mais sono que o habitual. Foi até a varanda, sentou na cadeira de vime que havia ali e ficou olhando a algazarra das crianças brincando na rua. Um menino branquinho e miúdo chutava uma bola para outro maior e mais corpulento. Do outro lado da calçada, duas meninas pulavam corda com suas marias-chiquinhas balançando de um lado para o outro. “Como são livres” – pensou. Sentiu um desconforto no estômago e rapidamente passou as mãos pela barriga, massageando-a. Se ajeitou na cadeira e sentiu uma brisa suave bater em seu rosto. Os olhos foram serenando, serenando, serenando… 

Estava numa relva de grama verde brilhante. O vestido florido se misturava ao canteiro colorido de toda espécie de flores e ela e aquele lugar eram um. Ela andava livre, embalada por uma brisa suave enquanto perfumes misturados entravam vagarosamente por suas narinas. Era um aroma agradável e marcante que a fazia pensar que se a vida tivesse cheiro, seria aquele. O sol aquecia a pele macia de seus vinte e poucos anos e lhe trazia uma energia inebriante que a fazia querer dançar junto aos pássaros que voavam baixo ao seu redor. No meio de tanta euforia, uma pequena menina se aproximou. Era branca como os pequenos jasmins que haviam ficado pelo caminho. Acima da franja lisa e preta, trazia uma tiara azul com um grande laço. O vestido branco rendado era rodado e compunha com a meia-calça branca e os sapatos da mesma cor da tiara uma imagem angelical. Em seu ombro, trazia pousada uma bela borboleta que alternava suas cores – ora azulada, ora esverdeada – conforme os raios de sol iluminavam suas asas. Nas mãos, a pequena menina trazia uma rosa branca, que ofereceu à mulher. Ela aceitou e prontamente cheirou suas pétalas. Com carinho, lembrou-se do cheiro de sua mãe e sentiu-se muito agradecida. “Quem é você?”, perguntou em tom suave, encantada pela gentileza. Os grandes olhos castanhos da menina penetraram os da mulher e instantaneamente todos os espaços de seu corpo inundaram-se daquela presença alegre e pueril. E então, a pequena menina segurou sua mão e respondeu “Sou Amor” e a puxou levemente em direção a um longo caminho que se abria à frente delas, convidando-a para uma caminhada.

Acordou 

Preenchida.    

Os dias se seguiram e a mulher se preenchia cada vez mais: um sapatinho, um cueiro, um pequeno moisés. Um mosqueteiro. Ansiedade. Muitas dúvidas. Medo. Desejos.

Alegria! 

Alegria! 

Alegria! 

E assim a vida seguiu.   

Era mais uma tarde quente naqueles dias que se preparavam para a chegada da Primavera. Salete enxugou o suor da testa e se sentou em uma cadeira próxima à janela. Olhou para os calcanhares e reparou como estavam inchados. Apesar disso, sentia-se muito disposta. Pela janela, observou o sol brilhante no céu azulado. Não havia nuvens e como sempre não ventava. Tudo estava comum e estático naquele dia, até um bando de andorinhas surgir bailando em revoada. Eram muitas aves que performavam desenhando formas difusas  no céu de Salete, balançando pra lá e pra cá. Ela nunca havia observado aquele fenômeno por ali e assistiu de camarote o espetáculo íntimo que as aves faziam para ela. Pensou na sabedoria delas de sempre saber quando retornar às origens. Uma lágrima escorreu por sua face. 

Era a hora.

Deitada na maca, ouviu pela primeira vez o choro de seu bebê. Era alto e ansioso. Cheio de vida. Em uma fração de segundos, aquele choro despertou na mulher uma felicidade que logo foi substituída pela necessidade pungente de ter a criança em seus braços. Sentiu preocupação e o tempo que demoraram para pesá-la pareceu-lhe uma eternidade. Dra Nelma colocou a menina de cabelos pretos e arrepiados aninhada no peito de Salete. Uma grande euforia inundou a mulher. 

Tornara-se mãe.

Olharam-se profundamente: menina e mãe fundiram-se numa só presença.

“Minha menina! Bem vinda, Vanessa! Minha pequena borboleta”.

Era um janeiro quente como todos os outros. 

Vanessa estava animadíssima. De cima da escrivaninha pegou uma pasta e começou a analisar os papéis acumulados. Aqueles que não tinham mais serventia eram descartados e apenas os que tinham alguma utilidade se tornavam dignos de serem armazenados, como seu diploma de faculdade. Se deparou com algumas anotações de mudanças que precisava fazer na sua dissertação de mestrado. Como fora difícil terminá-la. Se lembrou de quantas vezes ficara angustiada por não conseguir avançar na escrita como deveria. Na época, parecia que ela nunca mais terminaria aquilo! Nada disso importava mais. No fim das contas, terminou e agora tinha preocupações bem maiores que o mestrado. Rasgou mais um papel inútil quando a campainha tocou interrompendo suas divagações.

“Miga, que saudade!” – Ana a abraçava apertado sem querer soltar.

“Ai, miga, também estava! E aí, como foi em Franca?”

“Tudo bem, Van. Os meninos estão enormes, um mais fofo que o outro! E você, como tem se sentido?”

“Tô ótima! Amanhã quero ir no zoológico em Americana fazer umas fotos.”

“Nossa, ta animada mesmo! Quanto tempo já, miga?”

“42 semanas!”

“Uau!” Ana olhava para a barriga da amiga. Estava enorme! Cheinha de amor, ela pensava…

“E, você, miga, está animada com a nova escola?”

“Ai, Van, sinceramente não tô não… Não consigo imaginar não te encontrar mais todos os dias…”- engoliu em seco.

Por um minuto, uma melancolia tomou conta da sala. Vários flashes dos momentos compartilhados pelas duas voltaram e Ana se lembrou do dia em que se conheceram.

Era o primeiro dia de trabalho na escola nova e ela se sentia muito deslocada. Ninguém a olhou ou falou com ela, exceto Vanessa. Naquele dia, foram juntas ao ponto de ônibus, que ela não sabia onde ficava. Desse momento em diante, não se largaram mais. Compartilhavam os almoços e se sentavam juntas nos intervalos e reuniões semanais. Nos dias que antecediam as férias escolares e pouquíssimos alunos compareciam às aulas, davam logo um jeito de se juntar. Conversavam sobre todas as coisas. Uma falava sobre a dificuldade de terminar a dissertação do mestrado e o desejo de ser mãe. A outra falava sobre o desejo de largar tudo e viajar pelo mundo. Vanessa explicava fatos históricos para Ana e essa lhe tirava dúvidas sobre o novo acordo ortográfico. Trocavam histórias de família. Trocavam receitas de pão e bolo. Trocavam segredos. 

Às vezes, não trocavam nada. Apenas ficavam sentadas na sala dos professores esperando dar o horário.

“E do que é esse bolo que você trouxe hoje, Ana?” – perguntou Marcos enquanto servia o café.

“De cerveja preta com chocolate. Receita nova.”

“Nossa, tá muito bom!” – enfiou outro pedaço na boca bebendo um gole do café fresco logo em seguida.   

Foi num domingo à tarde, meses antes, que os amigos confidenciaram a Ana, ansiosos e felizes, a chegada do bebê. Em outro domingo, no almoço de aniversário de Marcos, ela também estava presente quando revelaram a novidade para a família. Também acompanhou a amiga em um ultrassom. Enxergou um monte de borrões na pequena tela e não entendeu nada do que viu, mas achou a criança lindíssima! Se apaixonou por ela ali! 

“Miga, já vou! Passei mesmo para te dar um abraço, antes do seu momento. Vai dar tudo certo!”

Se abraçaram longamente.

Vanessa sentia a água envolver seu corpo num balançar suave que desaparecia com a chegada da contração forte que começava na altura da lombar e se espalhava como uma rajada, alcançando todos os cantos de seu corpo. Por um momento, o clarão da dor a cegou e um ruído a impediu de ouvir o marido e a parteira que estavam ali. Queria voltar e se concentrou para ouvir o mundo a seu redor. Ao longe, ouviu cavalos correndo. Pelo barulho, eles chegavam cada vez mais perto. Prestou atenção muito alerta: não eram cavalos, mas o pulsar de seu próprio coração. A dor começou a aumentar, aumentar e aumentar ainda mais.

De repente, apenas o barulho do riacho correndo.

Sentada em uma pedra, descansava os pés na água. Atrás de si, montanhas altas protegiam aquele vale de pedras e sonhos. A água transparente do riacho permitia ver pequenas pedras brancas em seu fundo. A moça ajeitou seu vestido longo para que a barra não se molhasse ainda mais e contemplou a cachoeira que jorrava forte ali perto. Ela abaixou uma das mãos até a água e percebeu seu fluxo rápido e certeiro. O rio sabia para onde correr. Sentiu uma pequena mão em seu ombro e virou seu rosto para ver. Um menino pequeno, branco como as pedras do riacho e de enormes olhos pretos de cantos amendoados a olhava com semblante alegre. Tinha lindos dentes que compunham um sorriso largo. Vestia uma camiseta listrada de branco e vermelho e na cabeça trazia um chapéu de pirata improvisado feito de papel. Ele, então, apontou para um caminho escondido que se abria no bosque de frondosas e altas árvores no lado oposto da cachoeira. Ela observou o bosque intrigada querendo saber o que havia para além daquelas árvores. Devolveu o olhar aos olhos esperançosos do menino, se levantou, lhe pegou pela mão e andou com ele até a entrada do bosque. Duas árvores entrelaçavam suas copas formando um arco. Ela espichou o olhar na tentativa de reconhecer o que havia à frente, mas o caminho era curvo e escuro e dali não se podia ver. Exitou por um momento. O menino a puxou pela mão insistindo na entrada. Olhou novamente lá para dentro e percebeu que não podia deixá-lo entrar sozinho. Respirou fundo e cedeu.

Seguiram…

Sentada na banqueta, apoiava as costas no peito do marido. Os dedos dela entrelaçados aos dele apertavam forte suas mãos na mesma proporção em que fazia força para trazer o menino ao mundo. O corpo exaurido parecia querer fraquejar e ceder a qualquer momento. Empurrou uma vez mais e parou: algo estava faltando.

 A parteira levantou o menino que chorava alto até o peito da mãe, que o pegou apalpando sua cabeça, mãos e pés. Lágrimas agradecidas dançaram por sua face.

O vazio que sentira em seu ventre poucos minutos antes preenchia agora seu colo. 

Olhou fundo nos olhos do menino e com ele tornou-se um. 

Partiram, então, em revoada.

Clarice desnecessária

Dedico este texto a Clarice, Rosilene e Vinícius, sempre muito necessários

 “Outra verdade: Laura é bastante burra. Tem gente que acha ela burríssima, mas isto também é exagero: quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos (LISPECTOR, C. A vida íntima de Laura)”

“Rô, Rô, fica aqui na minha sala para eu ir ao banheiro.” 

E escapuli para a sala dos professores para respirar por cinco minutos. Com o corpo agitado, tomei um copo de água e olhei a quadra pela janela. Meu olhar se deteve nas grades azuis que cercavam toda a escola, o que fez meus lábios se contraírem. Para além das grades, vislumbrei uma grande e frondosa árvore que ficava do lado de fora. Por alguns segundos, me perdi nos meus pensamentos e imaginei como ela devia se sentir: bela, grande, livre. Queria subir nos seus galhos e me sentir parte dela por alguns minutos. Sentir o vento inundar meu corpo da mesma forma que envolvia as folhas de sua copa num suave balançar. 

Que coisas ela devia saber das gentes que ali viviam? Que traquinagem das crianças mais novas teria ela presenciado? Que segredos saberia ela dos adolescentes do oitavo ano, que só queriam saber de sentar em bando nas aulas de português? Quem tava pegando quem? Será que ela observava a expressão no rosto das pessoas quando elas chegavam? 

Queria estar lá fora.

Lembrei que precisava voltar para sala e entrei rapidamente no banheiro. Sentei no vaso sanitário, coração acelerado, 11h35 e parecia que o dia não ia acabar nunca. Lembrava da doutora Daniela e respirava, como ela havia me recomendado. 

 Enquanto isso, no 6ºB, Rô insistia com Michael para abrir o caderno. 

“Vamos lá, eu vou te ajudar!”- disse ela num tom calmo, mas ao mesmo tempo muito animado, como se abrir o caderno e copiar a lição fossem a melhor coisa do mundo.

 “Vai, Gabriel, você também! Abre seu caderno. Isso, agora vamos escrever a data.”

“Que dia é hoje?”

“10 de junho.”

“Junho é seis ou sete?” – perguntou um dos meninos com o lápis a postos.

 “Como assim: seis ou sete? Você não sabe, Michael? Um menino inteligente como você? Não acredito!” e fez uma cara espantada que os obrigou a pensar.

“É sete, é sete!” – gritou afoito Gabriel. 

“Sete? Será que é sete?”, ela indagou provocando. Olharam-se sem se atrever a responder, como se uma resposta errada pudesse arruinar tudo. Era uma questão de vida ou morte para eles. Então, a professora emendou uma estratégia “Vamos contar” – disse recitando os meses do ano e contando nos dedos para eles “Janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho…” 

“É seis! É seis!” gritou animado Vinícius, o outro integrante do trio e quem Rosilene conhecia bem.

Vinícius sempre me abraçava quando me via chegar. Era um abraço firme e envolvente. Nunca queria soltar. Às vezes eu me sentia incomodada porque achava que um abraço tão longo não era adequado ao contexto, mas não queria magoar o menino, já muito machucado nessa instituição social chamada escola. Geralmente, esse momento afetuoso era interrompido por outro aluno que também queria um abraço, ou por alguma das meninas que queria saber o que teria de lição.

Todos os dias eu era salva por pequenos momentos: um abraço, um segredo que uma aluna me confiava, a troca com outros professores na hora do intervalo e o cafezinho que eu conseguia tomar porque a Rô ficava na minha sala por alguns minutos.

Apesar de ela ser professora de educação especial, dispensava uma atenção singular a qualquer um que necessitasse de apoio, fosse aluno ou professor. Aquela mulher loira de olhos castanhos e olhar sereno sempre tinha uma palavra amiga e um sorriso nos lábios. Ela me despertava um certo fascínio que não sei explicar de onde vinha. 

Apesar de doce, era muito firme com os alunos. Na verdade, sua presença trazia naturalmente uma certa ordem ao ambiente, mesmo entre nós professores. Não sei exatamente se isso acontecia pelos sessenta anos que definitivamente não aparentava ter, ou se por sua postura de nunca julgar as escolhas alheias. O fato é que a Rô contribuía bastante para acalmar minha ansiedade. Eu gostava de saber que ela estava na escola, mesmo que estivesse em outra sala.

“A prova é hoje, professora” – pergunta Bruna, num misto de ansiedade e preocupação.

“É sim. Tá preparada?”

“Acho que estou!”

Mas era claro que ela estava. Sem dúvida nenhuma, nasceu preparada.

Os alunos ajeitaram as cadeiras, sentaram, fizeram barulho, falaram demais, ralhei, se aquietaram, entreguei as provas, fizeram mais barulho, falaram mais, ralhei mais, se acalmaram. Eu disse que ninguém ia reprovar por causa de uma prova e que deveriam responder o melhor que conseguissem. 

Raro momento de silêncio. Os alunos liam.

“Vini, vou ler uma história para você, tá?” – diz Rosilene enquanto se ajeita na cadeira almofadada da biblioteca. 

“Tá!”

“Presta bastante atenção que eu vou te fazer perguntas sobre ela. Olha, lá, heim? Quero ver se você está atento!”

“Tá!”

“A história chama A vida íntima de Laura. Quem será que é Laura, hein, Vinícius?  

“Uma mulher” – responde ele enquanto esfrega as mãos nas coxas e balança as pernas.

“Será que é uma mulher? Vamos descobrir…” e assim faz a leitura do texto de Clarice Lispector que conta a vida de uma galinha, segundo o narrador, muito simpática e burra.

O menino ajeita os óculos e olha para o tampo redondo e azul da mesa enquanto Rosilene lhe faz perguntas a respeito da história que acabara de ler. Ele é um ótimo ouvinte e entendeu tudo o que tinha naquela narrativa. Entendeu mesmo. Tudinho. Entendeu até demais.

“Vini, olha a Clarice Lispector aqui” – e aponta para a imagem dela no papel antes de começar a ler uma pequena biografia da autora.

O menino olha com desdém.

“Vini, foi ela quem escreveu o texto que acabei de ler. O que você acha dela?”

“Desnecessária!”

“Desnecessária??” – se espantou a professora.

“É: desnecessária!” – respondeu claramente irritado.

“Mas por que desnecessária?” – indagou, ainda incrédula com a resposta do menino.

“Porque ela fica falando da vida dos outros e quem fala da vida dos outros é desnecessária!”

O ano é 1997. Da janela do quarto eu olho as nuvens no céu enquanto tiro meu tênis preto e surrado. Havia sido mais uma manhã comum na escola. “Não se esqueçam da prova de leitura, amanhã”, nos lembrava a professora Célia, enquanto ajeitava sua caixa de giz sobre os diários e seguia para a outra sala. O dia tinha amanhecido aberto, mas o céu já estava todo coberto por nuvens escuras. Deito na minha cama e abro meu livro muito curiosa para saber se os dois meninos vão conseguir escapar da onça. Sinto um cheiro de chuva e ouço o barulho da água gotejando do telhado. A onça se aproxima e eles não têm pra onde fugir. Os pelos do meu braço se arrepiam e eu fecho os olhos e enfio o livro na cara pensando alto “E agora?”. A chuva engrossa e ouço os relâmpagos rasgando o céu. Eu já não sei mais se chove no jardim que está depois da janela ou na floresta à minha frente. Preciso enfrentar a onça, mas tenho medo de ler mais uma sentença e ela me pegar. Amanhã tem prova: preciso terminar. Sento na cama, me ajeito numa postura rígida apoiada na cabeceira de madeira, tomo coragem e sigo.

10:22. Intervalo. Bia entra na sala com seu sorriso largo e sua animação típica de professores de educação física. Fecha a porta atrás de si para abafar a algazarra das crianças no intervalo e dispara “Gente, vocês acreditam que o Paulinho…” e já emenda a história de alguém que subiu no telhado, ou pulou a grade da escola para buscar a bola, ou ainda pulou a grade pra dentro da escola porque não aceitou a suspensão que levou. Me sirvo um café fumegante que tomo sem fome nem vontade, só para distrair a ansiedade que me habita por ter que voltar para a sala dali a pouco. Sentada ao meu lado, Rô come seu mamão com granola e me conta entre risos a história da Clarice desnecessária.

Rio alto. Penso em Vinícius e na nossa luta diária para aprender a ler. Sí-la-ba por sí-la-ba. Palavra por palavra.

Sentada ao lado dele, aponto as imagens no livro que lemos juntos tentando estabelecer uma relação entre as palavras e seus sons e significados. Nada. Não sei alfabetizar. Ele me pergunta sobre minha vida, e eu sobre a dele. Eu conto que moro no Centro e ele me conta do jogo que o distrai quando está sozinho em casa, sem os amigos. Michael se aproxima, logo Gabriel também, depois Carlos. Clara e Bruna chegam logo em seguida e já nem me lembro mais da lição que tinham que fazer. Uma conversa aleatória e pulsante sobre a vida se inicia e já não há mais nenhuma diferença entre mim e aqueles meninos e meninas: somos puro sonho.

Bate o sinal e minha tentativa de leitura fracassada é encerrada pelo fim da aula.    

 Vinícius não sabe ler e isso me dói.

Chego em casa, almoço rapidamente e me jogo no sofá. Fico pensando na prova de Vinicius.

“Desnecessário, desnecessário… Clarice desnecessária. Desnecessário mesmo é o diagnóstico que deram para ele, isso sim!”. Adormeço.

“Vini, vamos subir na árvore?” pergunta Ana, já colocando a perna roliça a postos. O pé vacila por um minuto e seu tênis preto e surrado raspa no tronco fazendo barulho. O amigo a ajuda, empurrando. 

“Consegui! Passa meu livro! Isso! Agora vem!” e estende o braço ao amigo o ajudando a subir também. A vida é uma troca, como bem diz a professora Célia.

Em cima da árvore, os dois sentem uma leve brisa. O cheiro das folhas os envolve. O menino ajeita os óculos e seu olhar se detém nas grades que cercam a escola. Depois delas, está a quadra.

“Hoje na educação física, o Paulinho subiu no telhado… A Bia ficou pistola!”   

“Hahaha. Eu gosto da Bia. Ela deixa as meninas jogarem junto com os meninos”

“Acho certo. Tem menina que joga muito melhor do que os meninos”

“É mesmo. Como chama aquela menina da outra sala, que joga super bem?

“Eu sei de quem você está falando, é da menina do 6º A. Não sei como ela chama. Sei que a professora de matemática não gosta dela”

A menina se apoia no galho grosso da árvore e abre o livro. Se sente segura ali. A árvore é gentil com ela. 

O menino indaga: “Do que fala essa história?”

“De uma galinha!”

“De uma galinha? E o que tem de interessante nisso?”

“Não sei dizer, mas o jeito que ela descreve a galinha parece que tá falando de uma pessoa”

“Lê pra mim?”

O coração da menina se aperta. Ele é tão gentil! Mas não consegue ler. Dizem que ele tem laudo. Que raios é isso? – ela pensa. Começa a leitura e quando chega numa parte que diz que a galinha é burra, o menino se enfurece:

“Isso não é justo! Não dá para ficar falando por aí que ela é burra, mesmo se ela for, ninguém tem nada a ver com isso! Que história boba!”

O interfone toca. Acordo sobressaltada. Entrega de livro.

Sentada no sofá, enquanto abro o pacote de livros que comprei na semana anterior, percebo a associação que Vinícius fez entre o nome que um especialista qualquer deu para sua dificuldade de acompanhar as aulas e a condição de Laura no galinheiro.

Tirou 10.

Empatia extrapola qualquer currículo escolar.  

A voz

A meu avô Antônio, de quem nunca ouvi a voz.

Novembro de 2019, a quinta aula do dia, um  calor do cão. Kauan é mandado para minha sala porque estava tentando se cortar com a lâmina do apontador. Um menino alto e robusto de bochechas rosadas e uns cílios que custam caro em salões de beleza por aí. Comecei a conversa casualmente, como quem fala sobre o tempo ou sobre o preço do leite para tentar entender o que havia por trás do ocorrido.

“Você já veio para a direção hoje, né?”

“Aham” – balbuciava enquanto limpava as lágrimas que não paravam de rolar pela face.

“Mas, por que era mesmo? Era por que você estava conversando na aula da Vera, não era?”

“Era…”

“Aí depois vocês foram pro intervalo?”

“Aham.”

“E como foi no intervalo?”

“Foi legal. A gente jogou free fire e combinou de jogar mais depois da aula, lá em casa.”

“Mas então, porque você está triste?”

Ele olhou pra baixo, deu de ombros e disse:

“É que já faz um tempo, meu avô morreu” – e mais lágrimas escorreram pela sua bochecha. Naquele momento, minha vontade era abraçá-lo e chorar junto. Meu coração se apertou um pouquinho. Senti saudades do avô dele que nem cheguei a conhecer.

“Ele morreu do quê?” – pergunto segurando meu rosto com as mãos e demonstrando grande interesse pela história do avô.

“Ele teve uma doença e perdeu a perna. Aí, ele não aguentou e morreu depois.”

“Ele teve diabetes? Como ele chamava?”

“Teve. Ele chamava Valdomiro.”

“Entendi. Então tava tudo bem na hora do intervalo, mas aí na aula de Ciências você começou a ficar triste?”

Ele balançou a cabeça apontando que sim. Então, perguntei:

“Mas na hora que se sentiu triste, você tava fazendo o que?”

“Tava copiando a lição.” 

“E sobre o que era a lição?” 

“Era um texto sobre quando as frutas apodrecem.”

“E o que acontece quando as frutas apodrecem?”

“Elas morrem.”

As frutas morrem. Assim como os pássaros, como as flores, como os bichos, Assim como o seu Valdomiro, eu e você.Tudo o que um dia vive, morre. E Kauan aprendeu aos 11 anos uma covarde lição da vida: até os avós morrem. Infelizmente, eles morrem. Essa lição, aprendi aos 16.

Era uma noite de sábado. Erotides, a quem todos chamavam de Nego, apesar da pele clara e dos olhos azuis, colocou delicadamente a minhoca no anzol e o lançou ao rio. A  escuridão do céu o acompanhava e ele sentia o balançar suave da canoa. A lua prateada o iluminava e trazia uma atmosfera quase mística à cena. Ele lembrou da esposa e dos assados que ela fazia com os peixes frescos que ele mesmo pescava. Pensou nos filhos e no orgulho que tinha de tê-los ensinado a pescar e a gostar disso. Se lembrou dos netos e de seus primeiros peixes.

Sorriu.

O cheiro da água e da vegetação do lugar se misturavam e ele podia ouvir ao longe as cigarras cantando. Sentado ali na canoa, enquanto esperava o peixe morder sua isca, ele e aquele lugar se tornaram um só e ele se sentiu completo. Paz e amor preencheram seu coração de mais de setenta anos. Foi tanto amor e tanta plenitude que não coube.

Ele me chamava de galega. Eu era pequena e me lembro de estar em cima do pesqueiro e perceber uma vara se envergando. Sem pensar muito, agarrei a vara e comecei a girar o molinete para tirar o peixe da água. O peixe era forte e eu estava ansiosa, torcia para que a linha não arrebentasse e continuava girando o molinete sem parar. O suor escorria pelo meu rosto, nao sei se pelo calor daquele dia quente ou se pelo esforço que fiz para tirar aquele peixe da água. Quando finalmente o joguei em cima do pesqueiro, ouvi meus tios e meu pai vibrando e rindo. Eu havia pescado. Meu avô é que tinha armado aquela vara, o que tornava ele co-autor do meu feito. Me senti muito especial naquele dia. Vitoriosa. Me senti forte. E me senti muito próxima de meu avô.  

Quando fecharam o caixão, selando sua trajetória neste mundo, meu coração se acelerou dentro de meu peito e deu um grito tão agudo, tão agudo, tão agudo, que embora inaudível para os presentes naquele velório, está marcado até hoje na minha memória. Quando lembro dele, penso que a voz da morte deve ser assim. Há 18 anos, o choro sofrido daquele dia ainda brota nos meus olhos de tempos em tempos. Se a voz da morte ainda escuto no choro que me retorna, a voz do meu avô se perdeu em mim e já não sei mais como é.

Assim como seu Valdomiro, meu avô deixou no mundo netos com muitas saudades.

 Naquela tarde quente de novembro, Kauan e eu conversamos sobre o ciclo da vida, sobre sentir saudade, sobre chorar. E eu revivi na memória um pouquinho do meu avô. 

No fim das contas, não era o pulso que Kauan tentava cortar com aquela lâmina fajuta que apenas o arranhou e o mandou para a direção. O que Kauan queria mesmo era arrancar de dentro de si a tristeza de não ter mais seu avô todos os dias lhe esperando chegar da escola, lhe ensinando coisas. Ele queria arrancar de todos os seus poros a saudade de ouvir a voz do seu avô lhe fazendo perguntas, contando histórias, lhe dizendo “Eu te amo”.

O que ele queria realmente, o que ele queria mesmo, era que os avós fossem imortais.

Eu também queria. Eu queria ouvir uma vez mais, enquanto dava tapinhas em minhas costas, aquela voz firme e calorosa me dizendo: “Galega, galega!”