Clarice desnecessária

Dedico este texto a Clarice, Rosilene e Vinícius, sempre muito necessários

 “Outra verdade: Laura é bastante burra. Tem gente que acha ela burríssima, mas isto também é exagero: quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos (LISPECTOR, C. A vida íntima de Laura)”

“Rô, Rô, fica aqui na minha sala para eu ir ao banheiro.” 

E escapuli para a sala dos professores para respirar por cinco minutos. Com o corpo agitado, tomei um copo de água e olhei a quadra pela janela. Meu olhar se deteve nas grades azuis que cercavam toda a escola, o que fez meus lábios se contraírem. Para além das grades, vislumbrei uma grande e frondosa árvore que ficava do lado de fora. Por alguns segundos, me perdi nos meus pensamentos e imaginei como ela devia se sentir: bela, grande, livre. Queria subir nos seus galhos e me sentir parte dela por alguns minutos. Sentir o vento inundar meu corpo da mesma forma que envolvia as folhas de sua copa num suave balançar. 

Que coisas ela devia saber das gentes que ali viviam? Que traquinagem das crianças mais novas teria ela presenciado? Que segredos saberia ela dos adolescentes do oitavo ano, que só queriam saber de sentar em bando nas aulas de português? Quem tava pegando quem? Será que ela observava a expressão no rosto das pessoas quando elas chegavam? 

Queria estar lá fora.

Lembrei que precisava voltar para sala e entrei rapidamente no banheiro. Sentei no vaso sanitário, coração acelerado, 11h35 e parecia que o dia não ia acabar nunca. Lembrava da doutora Daniela e respirava, como ela havia me recomendado. 

 Enquanto isso, no 6ºB, Rô insistia com Michael para abrir o caderno. 

“Vamos lá, eu vou te ajudar!”- disse ela num tom calmo, mas ao mesmo tempo muito animado, como se abrir o caderno e copiar a lição fossem a melhor coisa do mundo.

 “Vai, Gabriel, você também! Abre seu caderno. Isso, agora vamos escrever a data.”

“Que dia é hoje?”

“10 de junho.”

“Junho é seis ou sete?” – perguntou um dos meninos com o lápis a postos.

 “Como assim: seis ou sete? Você não sabe, Michael? Um menino inteligente como você? Não acredito!” e fez uma cara espantada que os obrigou a pensar.

“É sete, é sete!” – gritou afoito Gabriel. 

“Sete? Será que é sete?”, ela indagou provocando. Olharam-se sem se atrever a responder, como se uma resposta errada pudesse arruinar tudo. Era uma questão de vida ou morte para eles. Então, a professora emendou uma estratégia “Vamos contar” – disse recitando os meses do ano e contando nos dedos para eles “Janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho…” 

“É seis! É seis!” gritou animado Vinícius, o outro integrante do trio e quem Rosilene conhecia bem.

Vinícius sempre me abraçava quando me via chegar. Era um abraço firme e envolvente. Nunca queria soltar. Às vezes eu me sentia incomodada porque achava que um abraço tão longo não era adequado ao contexto, mas não queria magoar o menino, já muito machucado nessa instituição social chamada escola. Geralmente, esse momento afetuoso era interrompido por outro aluno que também queria um abraço, ou por alguma das meninas que queria saber o que teria de lição.

Todos os dias eu era salva por pequenos momentos: um abraço, um segredo que uma aluna me confiava, a troca com outros professores na hora do intervalo e o cafezinho que eu conseguia tomar porque a Rô ficava na minha sala por alguns minutos.

Apesar de ela ser professora de educação especial, dispensava uma atenção singular a qualquer um que necessitasse de apoio, fosse aluno ou professor. Aquela mulher loira, de olhos castanhos e olhar sereno sempre tinha uma palavra amiga e um sorriso nos lábios. Ela me despertava um certo fascínio que não sei explicar de onde vinha. 

Apesar de doce, era muito firme com os alunos. Na verdade, sua presença trazia naturalmente uma certa ordem ao ambiente, mesmo entre nós professores. Não sei exatamente se isso acontecia pelos sessenta anos que definitivamente não aparentava ter, ou se por sua postura de nunca julgar as escolhas alheias. O fato é que a Rô contribuía bastante para acalmar minha ansiedade. Eu gostava de saber que ela estava na escola, mesmo que estivesse em outra sala.

“A prova é hoje, professora” – pergunta Bruna, num misto de ansiedade e preocupação.

“É sim. Tá preparada?”

“Acho que estou!”

Mas era claro que ela estava. Sem dúvida nenhuma, nasceu preparada.

Os alunos ajeitaram as cadeiras, sentaram, fizeram barulho, falaram demais, ralhei, se aquietaram, entreguei as provas, fizeram mais barulho, falaram mais, ralhei mais, se acalmaram. Eu disse que ninguém ia reprovar por causa de uma prova e que deveriam responder o melhor que conseguissem. 

Raro momento de silêncio. Os alunos liam.

“Vini, vou ler uma história para você, tá?” – diz Rosilene enquanto se ajeita na cadeira almofadada da biblioteca. 

“Tá!”

“Presta bastante atenção que eu vou te fazer perguntas sobre ela. Olha, lá, heim? Quero ver se você está atento!”

“Tá!”

“A história chama A vida íntima de Laura. Quem será que é Laura, hein, Vinícius?  

“Uma mulher” – responde ele enquanto esfrega as mãos nas coxas e balança as pernas.

“Será que é uma mulher? Vamos descobrir…” e assim faz a leitura do texto de Clarice Lispector que conta a vida de uma galinha, segundo o narrador, muito simpática e burra.

O menino ajeita os óculos e olha para o tampo redondo e azul da mesa enquanto Rosilene lhe faz perguntas a respeito da história que acabara de ler. Ele é um ótimo ouvinte e entendeu tudo o que tinha naquela narrativa. Entendeu mesmo. Tudinho. Entendeu até demais.

“Vini, olha a Clarice Lispector aqui” – e aponta para a imagem dela no papel antes de começar a ler uma pequena biografia da autora.

O menino olha com desdém.

“Vini, foi ela quem escreveu o texto que acabei de ler. O que você acha dela?”

“Desnecessária!”

“Desnecessária??” – se espantou a professora.

“É: desnecessária!” – respondeu claramente irritado.

“Mas por que desnecessária?” – indagou, ainda incrédula com a resposta do menino.

“Porque ela fica falando da vida dos outros e quem fala da vida dos outros é desnecessária!”

O ano é 1997. Da janela do quarto eu olho as nuvens no céu enquanto tiro meu tênis preto e surrado. Havia sido mais uma manhã comum na escola. “Não se esqueçam da prova de leitura, amanhã”, nos lembrava a professora Célia, enquanto ajeitava sua caixa de giz sobre os diários e seguia para a outra sala. O dia tinha amanhecido aberto, mas o céu já estava todo coberto por nuvens escuras. Deito na minha cama e abro meu livro muito curiosa para saber se os dois meninos vão conseguir escapar da onça. Sinto um cheiro de chuva e ouço o barulho da água gotejando do telhado. A onça se aproxima e eles não têm pra onde fugir. Os pelos do meu braço se arrepiam e eu fecho os olhos e enfio o livro na cara pensando alto “E agora?”. A chuva engrossa e ouço os relâmpagos rasgando o céu. Eu já não sei mais se chove no jardim que está depois da janela ou na floresta à minha frente. Preciso enfrentar a onça, mas tenho medo de ler mais uma sentença e ela me pegar. Amanhã tem prova: preciso terminar. Sento na cama, me ajeito numa postura rígida apoiada na cabeceira de madeira, tomo coragem e sigo.

10:22. Intervalo. Bia entra na sala com seu sorriso largo e sua animação típica de professores de educação física. Fecha a porta atrás de si para abafar a algazarra das crianças no intervalo e dispara “Gente, vocês acreditam que o Paulinho…” e já emenda a história de alguém que subiu no telhado, ou pulou a grade da escola para buscar a bola, ou ainda pulou a grade pra dentro da escola porque não aceitou a suspensão que levou. Me sirvo um café fumegante que tomo sem fome nem vontade, só para distrair a ansiedade que me habita por ter que voltar para a sala dali a pouco. Sentada ao meu lado, Rô come seu mamão com granola e me conta entre risos a história da Clarice desnecessária.

Rio alto. Penso em Vinícius e na nossa luta diária para aprender a ler. Sí-la-ba por sí-la-ba. Palavra por palavra.

Sentada ao lado dele, aponto as imagens no livro que lemos juntos tentando estabelecer uma relação entre as palavras e seus sons e significados. Nada. Não sei alfabetizar. Ele me pergunta sobre minha vida, e eu sobre a dele. Eu conto que moro no Centro e ele me conta do jogo que o distrai quando está sozinho em casa, sem os amigos. Michael se aproxima, logo Gabriel também, depois Carlos. Clara e Bruna chegam logo em seguida e já nem me lembro mais da lição que tinham que fazer. Uma conversa aleatória e pulsante sobre a vida se inicia e já não há mais nenhuma diferença entre mim e aqueles meninos e meninas: somos puro sonho.

Bate o sinal e minha tentativa de leitura fracassada é encerrada pelo fim da aula.    

 Vinícius não sabe ler e isso me dói.

Chego em casa, almoço rapidamente e me jogo no sofá. Fico pensando na prova de Vinicius.

“Desnecessário, desnecessário… Clarice desnecessária. Desnecessário mesmo é o diagnóstico que deram para ele, isso sim!”. Adormeço.

“Vini, vamos subir na árvore?” pergunta Ana, já colocando a perna roliça a postos. O pé vacila por um minuto e seu tênis preto e surrado raspa no tronco fazendo barulho. O amigo a ajuda, empurrando. 

“Consegui! Passa meu livro! Isso! Agora vem!” e estende o braço ao amigo o ajudando a subir também. A vida é uma troca, como bem diz a professora Célia.

Em cima da árvore, os dois sentem uma leve brisa. O cheiro das folhas os envolve. O menino ajeita os óculos e seu olhar se detém nas grades que cercam a escola. Depois delas, está a quadra.

“Hoje na educação física, o Paulinho subiu no telhado… A Bia ficou pistola!”   

“Hahaha. Eu gosto da Bia. Ela deixa as meninas jogarem junto com os meninos”

“Acho certo. Tem menina que joga muito melhor do que os meninos”

“É mesmo. Como chama aquela menina da outra sala, que joga super bem?

“Eu sei de quem você está falando, é da menina do 6º A. Não sei como ela chama. Sei que a professora de matemática não gosta dela”

A menina se apoia no galho grosso da árvore e abre o livro. Se sente segura ali. A árvore é gentil com ela. 

O menino indaga: “Do que fala essa história?”

“De uma galinha!”

“De uma galinha? E o que tem de interessante nisso?”

“Não sei dizer, mas o jeito que ela descreve a galinha parece que tá falando de uma pessoa”

“Lê pra mim?”

O coração da menina se aperta. Ele é tão gentil! Mas não consegue ler. Dizem que ele tem laudo. Que raios é isso? – ela pensa. Começa a leitura e quando chega numa parte que diz que a galinha é burra, o menino se enfurece:

“Isso não é justo! Não dá para ficar falando por aí que ela é burra, mesmo se ela for, ninguém tem nada a ver com isso! Que história boba!”

O interfone toca. Acordo sobressaltada. Entrega de livro.

Sentada no sofá, enquanto abro o pacote de livros que comprei na semana anterior, percebo a associação que Vinícius fez entre o nome que um especialista qualquer deu para sua dificuldade de acompanhar as aulas e a condição de Laura no galinheiro.

Tirou 10.

Empatia extrapola qualquer currículo escolar.  

A voz

A meu avô Antônio, de quem nunca ouvi a voz.

Novembro de 2019, a quinta aula do dia, um  calor do cão. Kauan é mandado para minha sala porque estava tentando se cortar com a lâmina do apontador. Um menino alto e robusto de bochechas rosadas e uns cílios que custam caro em salões de beleza por aí. Comecei a conversa casualmente, como quem fala sobre o tempo ou sobre o preço do leite para tentar entender o que havia por trás do ocorrido.

“Você já veio para a direção hoje, né?”

“Aham” – balbuciava enquanto limpava as lágrimas que não paravam de rolar pela face.

“Mas, por que era mesmo? Era por que você estava conversando na aula da Vera, não era?”

“Era…”

“Aí depois vocês foram pro intervalo?”

“Aham.”

“E como foi no intervalo?”

“Foi legal. A gente jogou free fire e combinou de jogar mais depois da aula, lá em casa.”

“Mas então, porque você está triste?”

Ele olhou pra baixo, deu de ombros e disse:

“É que já faz um tempo, meu avô morreu” – e mais lágrimas escorreram pela sua bochecha. Naquele momento, minha vontade era abraçá-lo e chorar junto. Meu coração se apertou um pouquinho. Senti saudades do avô dele que nem cheguei a conhecer.

“Ele morreu do quê?” – pergunto segurando meu rosto com as mãos e demonstrando grande interesse pela história do avô.

“Ele teve uma doença e perdeu a perna. Aí, ele não aguentou e morreu depois.”

“Ele teve diabetes? Como ele chamava?”

“Teve. Ele chamava Valdomiro.”

“Entendi. Então tava tudo bem na hora do intervalo, mas aí na aula de Ciências você começou a ficar triste?”

Ele balançou a cabeça apontando que sim. Então, perguntei:

“Mas na hora que se sentiu triste, você tava fazendo o que?”

“Tava copiando a lição.” 

“E sobre o que era a lição?” 

“Era um texto sobre quando as frutas apodrecem.”

“E o que acontece quando as frutas apodrecem?”

“Elas morrem.”

As frutas morrem. Assim como os pássaros, como as flores, como os bichos, Assim como o seu Valdomiro, eu e você.Tudo o que um dia vive, morre. E Kauan aprendeu aos 11 anos uma covarde lição da vida: até os avós morrem. Infelizmente, eles morrem. Essa lição, aprendi aos 16.

Era uma noite de sábado. Erotides, a quem todos chamavam de Nego, apesar da pele clara e dos olhos azuis, colocou delicadamente a minhoca no anzol e o lançou ao rio. A  escuridão do céu o acompanhava e ele sentia o balançar suave da canoa. A lua prateada o iluminava e trazia uma atmosfera quase mística à cena. Ele lembrou da esposa e dos assados que ela fazia com os peixes frescos que ele mesmo pescava. Pensou nos filhos e no orgulho que tinha de tê-los ensinado a pescar e a gostar disso. Se lembrou dos netos e de seus primeiros peixes.

Sorriu.

O cheiro da água e da vegetação do lugar se misturavam e ele podia ouvir ao longe as cigarras cantando. Sentado ali na canoa, enquanto esperava o peixe morder sua isca, ele e aquele lugar se tornaram um só e ele se sentiu completo. Paz e amor preencheram seu coração de mais de setenta anos. Foi tanto amor e tanta plenitude que não coube.

Ele me chamava de galega. Eu era pequena e me lembro de estar em cima do pesqueiro e perceber uma vara se envergando. Sem pensar muito, agarrei a vara e comecei a girar o molinete para tirar o peixe da água. O peixe era forte e eu estava ansiosa, torcia para que a linha não arrebentasse e continuava girando o molinete sem parar. O suor escorria pelo meu rosto, nao sei se pelo calor daquele dia quente ou se pelo esforço que fiz para tirar aquele peixe da água. Quando finalmente o joguei em cima do pesqueiro, ouvi meus tios e meu pai vibrando e rindo. Eu havia pescado. Meu avô é que tinha armado aquela vara, o que tornava ele co-autor do meu feito. Me senti muito especial naquele dia. Vitoriosa. Me senti forte. E me senti muito próxima de meu avô.  

Quando fecharam o caixão, selando sua trajetória neste mundo, meu coração se acelerou dentro de meu peito e deu um grito tão agudo, tão agudo, tão agudo, que embora inaudível para os presentes naquele velório, está marcado até hoje na minha memória. Quando lembro dele, penso que a voz da morte deve ser assim. Há 18 anos, o choro sofrido daquele dia ainda brota nos meus olhos de tempos em tempos. Se a voz da morte ainda escuto no choro que me retorna, a voz do meu avô se perdeu em mim e já não sei mais como é.

Assim como seu Valdomiro, meu avô deixou no mundo netos com muitas saudades.

 Naquela tarde quente de novembro, Kauan e eu conversamos sobre o ciclo da vida, sobre sentir saudade, sobre chorar. E eu revivi na memória um pouquinho do meu avô. 

No fim das contas, não era o pulso que Kauan tentava cortar com aquela lâmina fajuta que apenas o arranhou e o mandou para a direção. O que Kauan queria mesmo era arrancar de dentro de si a tristeza de não ter mais seu avô todos os dias lhe esperando chegar da escola, lhe ensinando coisas. Ele queria arrancar de todos os seus poros a saudade de ouvir a voz do seu avô lhe fazendo perguntas, contando histórias, lhe dizendo “Eu te amo”.

O que ele queria realmente, o que ele queria mesmo, era que os avós fossem imortais.

Eu também queria. Eu queria ouvir uma vez mais, enquanto dava tapinhas em minhas costas, aquela voz firme e calorosa me dizendo: “Galega, galega!”  

Onírico

6:38

Acordo com a claridade da janela que esqueci de vedar com o cobertor, a cortina que minha mãe brilhantemente improvisou na última visita que me fez. Ela sempre arruma um jeitinho para as coisas.

Nunca gostei de claridade para dormir.

Me levanto preocupada e ansiosa pensando se as cestas básicas vão demorar muito para chegar na escola. Penso que poderiam chegar logo às 8hs da manhã para eu já ligar logo para esses alunos e ficar livre disso, afinal, estou em recesso. 

Alguns pensamentos revoltados permeiam meu imaginário me lembrando de todas as coisas de que não gosto nesse emprego. 

“Ah, mas pelo menos você está empregada!” “Ah, tem gente que não tem emprego” “Ah, mas tem coisa muito pior”… Sinto raiva, pego o celular, não adianta esperar mensagem do vigilante antes das 8h30. Sinto mais raiva, me deito novamente, viro para o lado, ajeito o travesseiro, adormeço…

Sonho…

Um lindo céu azul de um dia de verão. Sentada num banco, observo as árvores e a praça à minha frente. Ao longe, ouço um francês  que mal entendo: não me importa, logo aprendo. Tenho comigo uma mochila grande e a impressão de que logo mais estarei em outro lugar. Na mão, um pequeno caderno e uma caneta, gosto de anotar as coisas. Sinto uma leve brisa, fecho os olhos e respiro: me sinto feliz.

Abro os olhos e olho pela janela do trem. Percebo levemente seu movimento, mas sei que ele vai rápido. Queria abrir a janela e colocar a cabeça para fora para sentir o vento bater nos meus cabelos, como quando viajava para o rancho com meu pai. Me ajeito na poltrona, fecho os olhos e lembro de quando eu nadava livremente na represa de Peixoto. 

A água refletia o verde das montanhas e combinava com a cor de meus olhos: verde-esperança. Eu pulava do pesqueiro num lado bem fundo onde não dava pé. Só queria flutuar e sentir a água  envolver todo o meu corpo. Quando me cansava de tentar não afundar, nadava até o cabo que meu pai e meus tios colocaram como limite para nós. Nos pendurávamos ali por horas. Ultrapassávamos o limite muitas vezes. Eu nadava livre.

Abro os olhos e estou numa estação de trem.Muitas pessoas indo para todos os lados. Nunca estive ali, mas sei exatamente onde ir e o que fazer. Vou andando.

Livre 

Acordo novamente. 8:38. Olho as mensagens do vigilante: nada. Nenhuma mensagem, as cestas não chegaram. 

Dessa vez me levanto. Abro a janela. Olho novamente a tela do celular e não tem nenhuma mensagem dele. Levo meu andar ansioso para a cozinha e passo um café preto e forte, como o da minha avó. Gosto de sabores intensos.

Tiro do congelador um dos pães que assei na semana anterior e coloco na fritadeira elétrica. Logo ele descongela e aquece. Parece feito na hora. 

Sento no sofá da sala, olho para a tela do celular mais uma vez: dezenas de mensagens, nenhuma dele. Nenhuma do vigilante.

Abro a mensagem genérica que meu pai me manda todos os dias: uma mensagem pronta, com uma figura fofa e palavras positivas. Não consigo imaginar “Que o dia seja simplesmente lindo, repleto de paz, amor e muitas bênçãos!” saindo da boca de meu pai, um homem fechado e que pouco se expressa, embora saiba que é exatamente o que ele deseja para mim todos os dias. 

Eu respondo sempre que o amo, pois o amo todos os dias e peço para que se cuide, já que pessoas próximas estão com Covid. Ele me manda um áudio: “To cuidando, minha filha, to cuidando. Tá escutando o baruim do serviço?” Ao fundo, escuto o barulho da solda. Meu pai é serralheiro, muito criativo. Sempre tive certeza de que ele e meus tios fundaram as Organizações Tabajara, do finado Casseta e Planeta. 

Sinto saudades de casa, mas a cada dia fico sabendo de mais e mais casos de contágio em Franca. Me preocupo com meus pais. A ideia de perdê-los sem vê-los…. Apago esse pensamento, deleto.

E as cestas, heim?

Nada. Nenhuma mensagem ainda.

Me sinto ansiosa. Me sinto presa.

Divago…

Penso na minha mãe. Bonitona, saudável, uma mulher forte! Come bem, faz exercícios, nos alimenta. E reza. Reza por si, pelas irmãs, reza por todos nós. Reza por mim e me nutre. Se preocupa muito comigo, já me disse algumas vezes que se preocupa mais comigo. 

 “Vovó, vovó, olha!” Nícolas aponta o pássaro no céu. Ama os passarinhos, ama o quintal, ama mais ainda essa avó que brinca, abraça, beija e amassa. “O que o passarinho tá fazendo? Ta voando?”, ela diz. “Sim!” e pega a avó pela mão e a leva ao banco de balanço. Sentam os dois e assim se enamoram pelo tempo que durar a visita.

Visitas cada vez mais raras num tempo em que o contágio só aumenta.

Sinto falta do quintal, do balanço, da alegria contagiante dos meus sobrinhos ao verem a tia.

11:15. Decido almoçar e ir pra escola logo, mesmo sem as cestas terem chegado. Quero acabar com esse sofrimento. No caminho vou pensando o que fazer: ligar em x lugar para ver se chega hoje mesmo; ligar para os alunos do dia; ligar… Chega a mensagem: “Ana, as cestas acabaram de chegar: 102” Ufa! Menos um trabalho.

Enfim termino minha função de telefonista e consigo falar com a maioria dos alunos. Com quem não consigo, peço ajuda aos professores. 17 horas e me dou por vencida: decido ir pra casa. Vou com a sensação de que o trabalho não acabou. 

Estou ansiosa.  Me sinto presa.

Abro a porta da sala e penso na zona que está o apê. Olho no sofá e não tem Mariana. Sento na minha poltrona favorita, olho as plantas que coloquei na frente da TV porque não quero ver as notícias…  Respiro e penso que não dá para passar a vida toda nessa ansiedade. 

Queria voltar pro meu sonho…

“Miga, eu tenho certeza de que você vai pra Europa. Desde quando você foi conhecer o outro apartamento e disse que queria viajar, eu senti que era verdade, sabe? Eu pensei, nossa, essa menina vai mesmo, ela tá falando sério”, diz ao mesmo tempo em que fazemos as contas de quanto cada uma tem que pagar aquele mês. 

Aleatoriamente, um ator parecido com o Tonho da lua se materializa na tela da nossa TV. Rimos. Quando ri, Mariana chacoalha o corpo todo, joga seu cabelo para trás. Sua gargalhada alta preenche a sala inteira e sua companhia, uma parte dos meus dias. 

Hoje, o que preenche a sala é sua ausência.

Sinto fome. Como uma fruta e não tenho ânimo para preparar mais nada. Vou para a cama, e a bagunça do meu quarto me incomoda. Fecho a janela para escurecer o quarto e eu não enxergar o caos: nem dele, nem meu. Estou cansada. 

Afasto as roupas lavadas que recolhi mais cedo e joguei ali em cima da cama e me deito na metade que resta livre. 

Pego o celular e troco algumas mensagens com alguns professores. São mensagens de trabalho, nao aguento mais…

Troco mensagens com a Vanessa, um sonho de pessoa.

“Miga, arrumei mais um motivo para morar na Bélgica e tenho certeza que o Senna vai querer me visitar!” e mando uma matéria sobre o Delirium Cafe. “Nooosssaa, já to indo te visitar agora”. Penso em como eu queria receber essa visita. Aqui mesmo, em Campinas, bebendo Corona extra, ou café, ou água. Ou bebendo apenas da presença uma da outra. Nossos assuntos sem fim. Nossas confissões, trocando medos, trocando sonhos, ideias malucas – mais minhas do que dela. Trocando afeto.  

 E tocando em frente.

21:40. Um pouco mais cedo, eu soube de uma pessoa próxima a meu pai que faleceu hoje de Covid. 42 anos, apenas 8 anos mais velho do que eu. Dessa vez, temo também por mim. 

Temo não fazer a viagem de trem.

Temo não viver o sonho do sono matutino.

Temo não sonhar mais…

Sento e escrevo este texto. Isso me conforta. Já não me sinto tão ansiosa. Talvez me sinta um pouquinho livre.

Mando uma mensagem pra Marla “Ainda tá acordada? Vou publicar mais um.”

Olho pro cursor piscando na tela e penso que falta algo para finalizar. Nada me vem. Só a certeza de que as coisas sempre ficarão assim: meio inacabadas.

Memórias de leitura

– Era uma vez… Não, melhor não. Melhor começar assim: “Um dia…”

– Tá falando sozinha? – perguntou a irmã esbugalhando os grandes olhos azuis

-Não, tô pensando alto. 

-Tá pensando em quê?

-Numa história que preciso escrever.

Os olhos da pequena brilharam:

-Finalmente você decidiu escrever um livro? Vai ser de humor, né? Sua cara, Naná, escrever um livro de humor. – falou entusiasmada.

– Não, Sassá. Não é um livro, é só um texto. Tá mais para uma redação escolar.

-Ué, não é você que manda os outros escreverem? Você não é a professora? – indagou a irmã

-É para um curso que fiz. Aliás, tô muito atrasada. Acho que tô com algum tipo de bloqueio criativo. Odeio escrever sob pressão! Acho que nunca mais vou pedir redação pros meus alunos!

Abraçou a irmã, apertou suas bochechas, como sempre fazia, e foi para o quarto onde costumava dormir quando ainda morava com os pais. Não era um quarto grande, não tinha uma decoração especial, suas paredes não eram pintadas com cores diferentes como as do quarto da irmã, mas era onde Ana costumava sonhar quando ainda não tinha ido desbravar o mundo. 

E Ana sonhava. Era uma sonhadora incorrigível. Sonhava quando dormia -e olha que dormia muito! Sonhava acordada. Quando via filmes. Sonhava quando conversava com a irmã sobre as coisas mais simples e as mais extraordinárias. Sonhava até quando não estava fazendo nada. 

Nasceu sonhadora, mas passou a sonhar mais depois que aprendeu a ler. Quando lemos muito, caro leitor, aprendemos a sonhar diferente. São sonhos mais coloridos, em lugares mais bonitos, especiais. Há criaturas maravilhosas. O mundo pode ser do jeito que nós queremos quando lemos.

Pois um dia, quando tinha apenas seis anos e via nas formas das nuvens elefantes e pirulitos, algo aconteceu dentro de sua cabeça curiosa. Ela olhava a lousa descascada da escola pública em que estudava e de repente as letras se juntaram e fizeram sentido: MO-LA. A menina leu. Leu de novo. Leu mais uma vez. Leu em voz alta e se encantou com o que aquela palavra fazia com sua língua. “-Vai ver é por isso que a palavra vai e vem se eu falar muito, né, mamãe? Por que é isso que as molas fazem!”…

 -Terminou sua história? – a irmã foi entrando no quarto e sentando na ponta da cama.

-Não, Não estou nem perto.

Sabrina acariciou o pé da irmã.

– Vamos lá na sala comigo – disse fazendo cara de cachorro sem dono.

-Mas eu tenho que terminar minha história.- lamentou Ana.

-Mas você está de férias e depois você demora para voltar para casa.

-Benhê, sou fessora, não tenho férias – debochou a garota.

A caçula fez cara de quem teve uma grande ideia. Uma boa ideia e disse:

– Naná, bem que você podia fazer outro curso, né? Arrumar um trabalho menos trabalhoso. E que paga mais. Aí você pode me levar para passear. – Arregalou os olhos e deu um sorriso sapeca de quem quer tirar vantagem da situação.

-É, bem que eu podia mesmo fazer outro curso. Prestar um concurso.- Falou enquanto passava preguiçosamente a mão nos cabelos e salvava o arquivo no computador.

Mais tarde, deitada na cama e pensando nas aulas que se iniciariam dali a poucas semanas, Ana se questionava “Eu podia mesmo fazer outra faculdade. Podia mesmo parar de lecionar. Eu devia prestar um concurso”. 

Começaria em uma escola nova no início de fevereiro. Estava ansiosa pelo que viria. Muitas vezes, Ana rolava na cama pensando se daria conta de se levantar para trabalhar no outro dia.  Havia dias em que não queria ir de jeito nenhum. Outros que ia e não queria ficar. E havia dias, poucos dias, em que tudo saia muito bem e ela se sentia feliz no fim do expediente.

Lecionava Português. Era uma luta “Tem que ler tudo isso?” gritava um aluno se referindo a um texto de uma página. Era geral: eles odiavam ler. Os alunos não liam. Não liam os textos da aula de português, não liam o problema da aula de matemática. Não liam sobre o ciclo da água, nas aulas de Ciências e nem sobre a Independência do Brasil nas aulas do professor Marcos. Eles não liam. Eram avessos. E é claro que a culpa era sempre da Ana. Afinal, ela era a professora de português e ela que tinha que fazê-los ler na escola. Mas se o problema fosse só esse, era mais fácil de resolver. Porém, o buraco era mais embaixo: Eles não liam nem fora, nem dentro da escola. Na verdade eles não liam nada. Em lugar nenhum.

Ana imaginou se não era algum tipo de moléstia coletiva, como a cegueira de Saramago. Havia começado em um aluno, numa esquina qualquer. Depois começou a se espalhar. Pegou no filho do vizinho, na filha do açougueiro, até no filho do professor e pronto! Ninguém mais conseguia ler. Seria uma geração iletrada. Insensível. Sem imaginação. Uma geração sem palavras. Como seria o mundo dessa geração? “Ai que horror!!”- Ana pensou. “Não, não, não. O mundo ainda tem jeito. Deve haver por aí crianças que lêem. Deve haver pais que contam histórias! Tem que haver! ”

Ahhh, as histórias… Como Ana amava as histórias quando era pequena! Ouvia histórias em casa e na escola. Depois que aprendeu a ler, participou de muitas histórias. Quando a irmã nasceu, viveu muitas histórias com ela no quintal. Ana já foi até monstro!  Mas era monstro bonzinho, desses que fingem que pegam e que fingem que mordem, mas não mordem nada, só fazem cócegas.

 Ana ainda gostava de histórias, apesar de ter quase trinta anos. E mesmo das histórias mais singelas, de livros infantis. Ela lia por prazer. Lia pela pureza. Lia porque entendia as palavras. Lia porque as palavras a entendiam. E lia principalmente porque as histórias a transformaram numa pessoa melhor. Uma pessoa mais sensível. Foi a leitura que a ensinou a se colocar no papel dos outros. Ela riu de muitos livros bobos, chorou com histórias lindas e ficou maravilhada com o estilo de alguns autores. 

E foi lendo, lendo e lendo que Ana entendeu que as histórias são sempre parecidas, mas que a maneira de contar faz toda a diferença! Por isso que há autores tão especiais, porque eles combinam as palavras de um jeito que nos fazem rir, chorar, ficar com dó, raiva, angústia. “Que coisa engraçada!”- ela pensou certa vez, ainda adolescente- “Eu nem sei que cara tem esse tal de Stephen King, mas é como se o conhecesse há décadas!” A literatura é mesmo assim: nos aproxima de pessoas que nunca vimos, sejam elas personagens ou narradores e nos faz enxergar as coisas de um modo especial. É realmente algo mágico.

Era essa magia que Ana queria que seus alunos descobrissem. Ela só não sabia como fazer isso…

Sabrina abriu a geladeira procurando algo para beliscar, enquanto a irmã comia um pedaço de pão com requeijão. Ao olhar a garrafa de água, se lembrou de uma situação cômica:

-Naná, lembra um dia que você me levou pro trabalho com você, e aí eu tava morrendo de fome e a gente parou para almoçar numa pensão que o copo de água era de graça? – Disse a estudante de Computação em meio a risadas.

-Mais ou menos – respondeu a irmã mais velha tentando resgatar aquela memória.

-Foi um dia que eu não lembro porque você me levou na escola com você, e aí só tinha essa pensão que tinha o prato do dia. E nesse dia tinha arroz, feijão, galinha e cabotiá e eu não gosto de cabotiá. Aí eu comi só a galinha e bebi muita água. Hahahahahaha!

– Eu lembro! Hahahahaha! 

– Por que você me levou lá, aquele dia?

– Não sei. Eu te levava para todos os lugares. 

-Foi engraçado.

-Sá, podíamos começar a escrever essas memórias. Podíamos fazer um livro de memórias.

-Ah, vai ficar engraçado – falou rindo a menor.

-Vai mesmo. Nossa vida é engraçada! – concluiu a maior.

Passaram um longo período lembrando de situações que viveram. Contavam uma. Lembravam de outra. Conversavam e riam, e assim foi por toda a noite. Sempre foram amigas, apesar da grande diferença de idade. Compartilharam o mesmo quarto até o irmão mais velho se casar. Depois que passaram a ter quartos individuais, sempre dormiam uma no quarto da outra, para relembrar os bons tempos.

 Memórias. A vida delas era repleta de lembranças. Boas lembranças. Momentos que Ana se esforçava para lembrar. Que as duas não queriam esquecer. Até que a ideia de fazer um livro de memórias não era ruim. Pelo menos assim as histórias vividas por elas não se perderiam.

Antes de dormir, Ana começou a pensar no livro de memórias que gostaria de escrever com sua irmã e teve uma ideia para incentivar seus alunos a lerem mais: contar suas histórias. Ana era assim: não se desligava do trabalho, mas isso deve ser mal de professor.

Dormiu pensando naquilo e sonhou. Sonhou que contava uma história engraçada que vivera ao lado da irmã para seus alunos e que eles riam e contavam suas próprias histórias. Foi um sonho tão bom que quando Ana acordou, ela continuou sonhando. Se programou para contar e ler memórias para seus alunos. Iriam ler, escrever memórias, compartilhar. Seria tudo uma grande festa. A festa das boas lembranças! 

Assim, os alunos não seriam mais iletrados e infelizes. O mundo tinha jeito. Era só ler histórias para os alunos. Não reclamariam mais de ler uma página. Logo estariam lendo Pedro Bandeira, depois Monteiro Lobato, Stephen King, José Saramago. Estariam lendo bulas, placas, cartazes. Logo escreveriam para o editorial do jornal. Ganhariam o Nobel da Literatura! Uau!! 

Ela iria salvá-los! Ela queria salvá-los. Conseguiria ela salvá-los?

– O que você tá lendo, Sá?

– Um livro com tirinhas do Calvin e Haroldo.

Ana se juntou à irmã na cama, riu de uma das tirinhas, lhe beijou a cabeça. Dirigiu seu olhar pelo quarto da irmã e percebeu um livro de terror que havia lhe dado quando ainda era criança. Seus pensamentos vaguearam e se tornaram uma lembrança.

Sabrina não costumava ler tanto até ganhar aquele livro de Ana. Era um livro de Stephen King: “A Dança da Morte”. Tinha quase 1000 páginas e não era um livro recomendado para uma criança de dez anos, mas Ana não se importava com isso: a história era boa! Além disso, você só parava de ler quando o livro acabava, de tão bom que ele era. Depois desse livro, a menina menor estava sempre lendo. Sempre procurando livros que a tocassem de alguma forma.

 Sabrina riu de outra tirinha, despertando a atenção da irmã. Ana chegou mais perto dela, se aconchegou, a abraçou e pensou: “Essa eu salvei!” 

(Texto de 2017, uma época muito muito muito anterior à pandemia do Coronavírus)

Eu não aguento mais.

Dia 9.785.399 da quarentena e hoje a saudade transbordou  pelos cantos do peito mais do que os outros dias até escorrer pelos olhos.

Parece que o isolamento nunca mais vai acabar. Eu não aguento mais.

Todos os dias me preocupo com minha avó. Ela me ensinou a fazer meu próprio pão e me dizia para buscar um “diproma”. Não se alfabetizou porque na década de 30 mulher não podia andar a cavalo e eram necessários alguns km a galope para chegar na escola.

Num outro tempo, muito distante, como em dezembro do ano passado, sentávamos na varanda de sua casa, em duas cadeiras, esticávamos nossas pernas cada uma sobre uma banqueta e proseávamos sobre a vida: “Ana Amélia, se eu tivesse ido na escola, não ia chamar Alice, não. Ia ser Doutora Alice! Mas, para estudar tinha que ir de cavalo e meu pai não deixava. De certo rasgava, né?” E gargalhava alto. 

Repetiu e repete muitas e muitas vezes essa história, ora brava ora sentida.

D. Alice tem 93 anos, é diabética e grupo de risco do Covid-19. O que mais me aterroriza é saber que a 310 km de distância, caso ela faça a passagem, seja pelo motivo que for, não conseguirei me despedir. Há despedidas? Não sei, mas me faz falta quando não consigo me despedir.

Quando minha avó materna morreu, eu também morava em Campinas, mas gosto de pensar que ela me esperou. Era uma sexta-feira quando minha mãe me ligou e disse “Filha, ela está indo”. Comprei passagem para as 13hs, na época eu ainda não conhecia a dádiva das caronas e dependia de uma viagem de quase seis horas para chegar em Franca. Às 18hs, quando cheguei na rodoviária, pedi à minha mãe que me levasse direto ao hospital, eu queria dizer até logo à minha vó Rosa. No hospital, enquanto passava a mão pelo seu lindo rosto e por seus cabelos, agradeci por ter sido a minha avó. 

Dizem que quando a gente morre, vemos um filme de nossa vida. Naquele momento, eu vi o filme da vida que vivi com minha avó.

Aquela mulher doce e forte viveu 89 anos. No quintal de sua casa, tinha uma roseira e muito pequenina eu achava aquilo literalmente muito poético numa época em que nem sabia o que era poesia. Além da roseira tinha sempre café, que a minha avó mesmo moía. Eu me lembro do cheiro do café sendo torrado e moído. 

Em Franca, essas duas mulheres que me precederam e geraram meus pais, me possibilitando a vida, sempre moraram na mesma rua, que se bem me lembro foi como meus pais se conheceram. Eu tinha uma rua inteira para brincar com meus inúmeros primos e em cada esquina a casa de uma avó. Eu tive a sorte de transitar livremente pelas duas casas, que estavam sempre cheias. Foi uma infância muito feliz!

Talvez tenha sido nesse transitar que aprendi a amar a rua e as gentes.

Amo um bar e uma padaria e antes do isolamento eram programas rotineiros tomar uma cerveja ou um café com os amigos. Apesar de ter deixado minha cidade natal e me mudado para Campinas em 2012, nunca estive só. Muitos amigos e amores surgiram em minha vida nessa cidade e sou profundamente grata à diversidade de pessoas que Campinas me apresentou. Definitivamente uma segunda família, tão numerosa quanto a primeira. 

Marina, minha afilhada de 1 ano e 5 meses e filha de musicista, já tem um imenso repertório de palavras, mas dinda ela ainda não sabe falar, pois já passou um terço de sua vida longe de mim, e são apenas 15 minutos de carro de sua casa até aqui. 

Os amigos queridos, a família, as crianças, podemos ver a qualquer hora pela chamada de vídeo do whatsapp, pelo facetime, pelo google meet, por vídeos. Mas e os abraços? E sentar em volta de uma mesa de bar e beber um chopp Ipa no Coliseu? E os cafés eternos na padaria para falar de todos os assuntos do mundo e no fim  já nem se lembrar mais do que se falou porque o que importava mesmo não era o assunto, mas o momento? 

Eu quero ir para rua. Eu quero ir para casa visitar os meus. Eu quero abraçar meus amigos e seus filhos. Quero ler histórias para minha afilhada e brincar. Quero correr com o Augusto para a Vanessa e o Senna descansarem nem que seja por dez minutos e eu me cansar por uma tarde inteira. 

Já é o 9.785.399º dia de isolamento. 

Eu não aguento mais.